Teve RAP e Hip Hop no Carnaval! Palco Origens aponta para novo horizonte da cultura preta na folia

“Ô vei, vai colar aonde nesse Carnaval?”. “Rapaz, vou chegar lá no Origens. Vai tá com uma grade pancada”. “Tava sabendo não, qual vai ser?”. “Porra, mano, vai ter Vandal, Nova Era, Cronista do Morro, Yan Cloud, Underismo... vai ter até Batalha das Bruxas. Bota fé, pivete?!”.


A conversa acima é uma ficção, mas a verdade é que esse é um diálogo que muito provavelmente pode ter ocorrido neste Carnaval de Salvador. E não é por menos, né?! Na maior festa de rua do planeta, que ainda tem a hegemonia do axé music, é difícil encontrar um rolê para quem quer curtir rap e cultura hip hop. Mas nesse ano foi diferente, pelo menos para quem chegou lá no Palco Origens.


O palco, que ficou instalado no Centro Cultural Barroquinha, recebeu ao todo 31 shows, em cinco dias de Carnaval (da sexta a terça-feira). Movimentando mais de 12 mil pessoas, o evento sem sombra de dúvidas foi o mais comentado para quem estava em busca de uma “cena mais preta” nesse Carnaval. E não é por menos, no palco e fora dele, os protagonistas eram todos pretxs. Aqui em Salvador, nada mais justo, né?!


“Eu achei o evento muito bom, muito bem organizado. Um espaço cultura daquele jeito no meio do Carnaval de Salvador que é tão forte para o axé. E o Rap, a música mais preta de verdade, teve um espaço bom”, opina o jovem Fabio Silva, de 23 anos, que trampa de barbeiro em Santo Inácio.

Falando em produção, quem estava por trás da ideia do Origens é Mr. Armeng, que além de rapper é também um fomentador da cultura Hip Hop em Salvador. Ele apresentou, junto ao grupo Black Combo, o projeto do evento à Prefeitura de Salvador, por meio da Saltur (Empresa Salvador Turismo), que comprou a ideia e a oficializou na programação do Carnaval da cidade. Ele comenta como foi essa parceria:


Veja como foi a grade de atrações dos cinco dias de Palco Origens


- “Para apresentar o projeto, foi através do diálogo que já tenho com a Prefeitura através de outros editais que já participei. De tanto estar batendo, eu furei esse bloqueio”. Ele ainda explica como surgiu o Origens, que no nome tem Ori (cabeça, na língua iorubá) e Gens (pessoas, gente, ancestralidade). “O Origens não se resume a um palco, é um movimento. Fazendo uma analogia, é um polvo que tem vários tentáculos. O Origens dialoga com música, com moda, com fotografia, com dança, com arte e educação. O Origens é uma plataforma”, explica Armeng.



E essa mistura de expressões culturais é vista nas atrações, na estética do evento e também no público. Para o produtor cultural Vinícius de Souza, de 25 anos, você consegue ver essa identidade “da galera no jeito de vestir, no cabelo, na dança”. Ele pontua ainda que um dos melhores momentos do seu Carnaval foi no Origens, durante a apresentação de Vandal.


“Ver Vandal tocar, o público dele que é uma coisa visceral. Esse pra mim foi o ápice! É ver a galera que desceu pro Carnaval pra curtir rap”, relembra Vinícius.

Rapper Vandal durante apresentação no Palco Origens, na segunda-feira (24). Foto: @juamericanoph

Vandal é um dos nomes mais adorados da cena rap de Salvador, e de fato quem já assistiu um show dele sabe o porquê de essa ter sido uma das atrações mais aguardadas do Origens. Junto a ele, todos os outros artistas que se apresentaram no evento são pretos, assim como os produtores e funcionários contratados para o evento. Todos pagos com cachês, diárias e serviços. É o dinheiro circulando entre e para a gente preta!


Artista que vem ganhando um destaque notório na cena é a Cronista do Morro, que passa como um trem quando sobe ao palco mostrando que o seu bonde sempre BAGAÇA! Ela falou o que pensa sobre poder estar ocupando um espaço deste que, historicamente, centraliza a mídia e o dinheiro em grupos seletos.


“É mais do que a divulgação do nosso trabalho [artístico]. É a divulgação da nossa cultura, da nossa luta, da nossa história. É um projeto que abriu portas para a gente falar para pessoas que estamos aqui”, disse a rapper Cronista do Morro.

E é dessa descentralização do Carnaval de Salvador que agradou a BGirl Adriele Bidi, de 24 anos. Ela realiza aulas gratuitas de break para mulheres, além de produzir a Bonnie & Clyde Cypher, uma festa que resgata o melhor da cultura Hip Hop. “Eu achei o evento bem pensado, desde a parte de produção, estética, palco, estrutura. Artistas independentes, que não tem holofotes, estarem no palco de forma profissional. Foi feito para a gente mesmo, não foi uma parada que o evento é elitizado, você chega no evento e se sente bem”, comenta Bidi.


Entre as 31 apresentações, o Palco Origens reuniu artistas não só de rap, mas também de outras vertentes da Black Music, como Afro, Afro Pop, Reggae, R&B, Funk e Pagode Eletrônico. A festa ainda contou com uma edição especial da Batalha das Bruxas, duelo de rimas feito exclusivamente por e para mulheres e que vem ajudando a impulsionar o nome de algumas MCs em Salvador e Região Metropolitana. Quem levou a melhor na Batalha foi Nutt MC, que venceu Dandara MC na final e ganhou o prêmio de R$ 800 - a segunda colocada ficou com R$ 500.




“Saber que o Origens está dando essa oportunidade é muito lindo. Todos os artistas que estão aqui eu conheço e curto, mas nunca tiveram uma grande vitrine. A função do Origens foi abrir esse espaço e eu me sinto lisonjeado”, falou o Yan Cloud, artista que levou a mistura do trap com funk para o Carnaval.

Bom, não restam dúvidas de que o diálogo de ficção no começo do texto pode ter ocorrido de fato aqui em Salvador. Esse pode ser um bom sinal para a cena rap e negra da cidade, que é tão excluída e escanteada quando o assunto é Carnaval. Assim como o Origens, outras iniciativas para inserir a cultura hip hop na folia continuam ocorrendo, exemplo disso é o já tradicional bloco Nova Saga, que sai todo ano no circuito Dodô (Barra/Ondina).


Então uma coisa podemos ter certeza: dinheiro e espaço no Carnaval de Salvador têm! O que falta é cada vez mais projetos como o Origens conquistar essas vagas dentro dessa que é a maior festa de rua do planeta – como a própria Prefeitura se vangloria. Uma frase do próprio Mr. Armeng diz que “a cena sabe correr, só não sabe a direção”. Então que a direção seja de valorização e incentivo a cultura preta de Salvador.


Confira algumas fotos do evento:



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