Indemar fala sobre a faixa "Quebra", comenta novo EP e conta suas influências no RapBa

Morar entre a Baixa da Soronha e o Labirinto, nas entranhas de Itapuã, já diz muito sobre a presença da violência na vida de Indemar Nascimento, afroempreendedor, poeta e mc baiano de 23 anos. Mas a sua relação com a rua seguiu o caminho da militância, do rap e da poesia, tudo isso sem se desconectar dos ambientes em que vive através das letras de protesto que integram a maioria das suas composições. No final de agosto ele lançou "Quebra", faixa de realidade social, crítica a algumas estruturas sociais más utilizadas, como a escola pública, e fazendo conexões entre a história e a realidade quando, por exemplo, compara o Mar de Angola com a Estrada do CIA (localidade em Salvador famosa por desova de corpos).

"A influência da músicas 'Quebra' vem de tudo que já vi por aqui. Tráfico, crime, agressões no meu próprio corpo, perdas em grande massa pela PM. Parece como muitas histórias de outras quebradas; só mudam os rostos e a localidade. Mas a favela continua sendo uma só, com poucas variações"



Sobre a criação da obra, o Indemar afirma: "essa letra eu tive cuidado e não fiz de uma vez só, como geralmente é o jeito que sai minhas músicas". Tanto cuidado não foi a toa; "Quebra" é o primeiro trap do Mc e por isso ele quis compor parte por parte. Apesar da inspiração ser um componente que ajuda cada trabalho, são a leitura e as suas raízes ancestrais as principais fontes de conhecimento que irrigam as ideias do músico, como o mesmo contou ao RAP071.


Ainda em outubro a canção irá fazer parte do EP "Um Mundo dentro de Outro Mundo", segundo da carreira solo de Indemar Nascimento e com o propósito de representar a segregação social. Além de "Quebra", o trabalho será composto pela música tema, ao lado do Mc e ídolo 16 Beats, e vai promover a mistura entre o boombap, trap e funk. Outros Mc´s já tem suas participações confirmadas no EP, como Áurea Semiseria, Jeferson Devon e Poeta Com P de Preto (Rilton Jr.). Dentre as ideias rimadas, "o EP é muito direto; aborda racismo e genocídio do povo negro: falar um pouco da nossa história", de acordo com a explicação do próprio.




O primeiro EP foi intitulado de "Uma Alma Gritante" e é considerado por Indemar um processo de encontro com a sua própria alma. As letras fogem um pouco da linha marginal característica adotada pelo cantor, mas não falta verdade: "quis falar de minha mãe, infância, fome e perdas". Apesar do mc acreditar que a coletânea sofreu com a ansiedade de ser lançado "antes de qualquer outra coisa", e por ser o primeiro solo, o cantor identifica também os traços do seu amadurecimento, já que iniciou no rap em 2011, segurando os microfones da escola Mascarenhas de Morais, durante uma gincana, "em cima" do beat de Vida Loka Pt. 2, dos Racionais Mc´s.


Se for pra nomear as influências e peças importantes da sua caminhada, Nascimento vai do old school à nova geração, de Opanijé a Aurea Semiseria e Débora Evequer. Nomes clássicos na militância da juventude negra, ele não deixaria de citar 16 Beats, Paranética e Dark, "que para mim é um dos maiores letristras que já vi no rap", explica. Completando o time das influências, Indemar admira o profissionalismo e dedicação da Versu2 (Mobbiu + Cosca), os corres de Álvaro Réu e os Djs Chiba, Nai Sena e Jarrão. O salve especial ele dá para Sing, "moleque vom que me mostrou esse universo e por dois anos me acompanhou no grupo 3versos".


Ao lado da afroempreendedora e fotógrafa Tamires Almeida, Indemar lançou a marca Agonilê, com o intuito de trazer representatividade, ancestralidade, beleza, força e fé ao povo preto através de camisetas.

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