Xarope MC e Djonga escrevem a liberdade com mãos pretas


Marcos Vinícius, codinome Xarope MC: é assim que ele se apresenta no lançamento do primeiro single do seu álbum solo “Preto para Caralho”. E com 18 anos de trajetória dentro do movimento Hip Hop, segue rimando a partir do seu local de origem, a Baixa do Tubo, que é considerada pelo mc a base da sua vida e virou música em “Minha Dota”. Xarope MC é idealizador das cyphers Trem Bala parte 1 e parte 2, gravadas com jovens mc’s do Rap baiano, como Contenção 33, Nois por Nois, Aurea Semiséria, Sepet, Bulldogg e Sabótico.


A musicalidade de Xarope MC é totalmente imersa na cultura negra; Rap, Samba, Candomblé, são alguns dos elementos que compõe o repertório musical, o conectando com a essência ancestral africana. A música “Filho das folhas”, lançada recentemente no perfil 61 da Pinealpple, é um bom exemplo sobre a multiplicidade de ritmos que o mc trabalha.


E não poderia ser diferente em Escritores da Liberdade, na introdução do clipe um ritual do Candomblé abre caminhos para que os versos de libertação sejam escritos e profanados. O cenário do clipe é a histórica Ladeira da Preguiça, que une a cidade baixa e a cidade alta de Salvador, de frente para a Baía de Todos os Santos.




Ao escolher Djonga, um dos principais mc’s do Rap nacional na atualidade, para participação na música, Xarope MC mostra um dos motivos pelos quais o seu álbum se chama “Preto para Caralho”. Afinal, dois homens negros sobreviventes do genocídio que está em curso no Brasil, onde a cada 23 minutos um homem negro como eles são assassinados, escrever em nome da liberdade torna se cada vez mais necessário.


Em sua escrita, Xarope MC traz toda a sua formação enquanto sujeito, que carrega a carga histórica de ser um homem negro marcado pelo passado escravista, sabotado no tempo presente por causa da cor da pele, nascido pobre e como milhões de brasileiros que não tem registros de pai nos documentos, com certeza as ausências da mãe e do pai relatadas na música, o deixou ainda mais vulnerável para trilhar seu caminho.


E justamente, 130 anos depois da assinatura da Lei Áurea que aboliu a escravidão, Xarope MC e Djonga, não aceitam que nenhuma Izabel assuma os seus lugares, e tomam para si a tarefa de escrever sobre a liberdade ao mesmo tempo que a história do povo negro é reescrita por mãos pretas para caralho.


Por Henrique Oliveira, amante do Rap e colaborador do Rap071

Fotos: Divulgação / Diógenes Silva

*O RAP071 colaborou com a realização do clipe através da captação de imagens feitas pelos filmakers Bruno Pretto e Matheus Souza.

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