Série #LGBTQ+: Rico Dalasam fala da sua relação com a Bahia e da sua motivação em desbravar a cena

Atualizado: 4 de Dez de 2018



Desde 2015, quando foi lançado o EP “Modo Diverso”, com o single “Aceite-C”, o movimento hip hop foi surpreendido – de maneira positiva - com o aparecimento do rapper paulista Rico Dalasam. Considerado um dos percussores da cena queer rap do Brasil, o artista de 25 anos comunica em suas letras, no seu visual e no seu comportamento, o direito que a população LGBTQ+ tem de ocupar os espaços da sociedade e, não menos importante, comunica também sobre a liberdade de amar e de poder falar desse amor. Tarefa que não é muito simples, visto que a cena está apenas começando a reconhecer artistas que batalharam anos para ganhar notoriedade fazendo rap sem ser homem-cis-hétero.

Apesar de reconhecer que o movimento hip hop é predominantemente masculino, além de machista e homofóbico, Rico Dalasam não acredita que é um problema com o gênero musical e sim com a sociedade como um todo: “O rap não é nenhum monstro específico. A sociedade é assim. O rap é tocado por homens héteros, então é meio que notório esse tipo de condução, de comportamento sobre a resistência. Assim como em outros gêneros, as pessoas ainda não têm a capacidade de lidar com naturalidade e nem com generosidade de se colocar no lugar do outro e entender que é uma resistência diferente da dele. Nada mais!”.


“Que esse sou eu / Outro não dá pra ser /

Sem crise, sem chance / Que a vida é uma só”

(trecho de Aceite-C)

Em “Aceite-C”, Rico, que no próprio título da música já faz o convite para que as pessoas aceitem sua maneira de amar, também aproveita para reafirmar e reforçar a própria identidade. Claro que há um reconhecimento da importância da sua representatividade, mas o rapper assume que esse não foi seu primeiro objetivo quando optou fazer rap. “A intenção não era só criar uma contribuição para a cultura hip hop, mas também é que eu fizesse a música que eu estava querendo ouvir. Eu queria muito ouvir músicas como 'Não Posso Esperar' e 'Riquíssima', essas músicas não existiam e eu fui lá e criei. Mais do que pensar sobre se eu estava sendo representatividade ou não, eu queria só fazer e ouvir e dançar junto com meus amigos coisas que o rap não oferecia, mesmo a gente amando o rap”, explica Rico.

Antes de se tornar rapper, Dalasam trabalhou como cabeleireiro e editor de moda. Isso provavelmente explica a notória produção no seu visual. A forma de se vestir e de como usar o cabelo, por exemplo, é historicamente uma maneira de propor a revolução e de passar mensagens de liberdade de expressão e autoafirmação. “Quando eu não tinha voz, o jeito de eu dizer que não estava satisfeito e que queria me sentir vivo, era através da imagem. Através do meu cabelo, da roupa, do sapato, então tudo isso veio primeiro. No rap, eu achei um lugar da minha voz, de dar som a essa imagem e daí as rimas foram o som dessa imagem”, afirma o artista.

Disponho Armas Libertárias a Sonhos Antes Mutilados Este é o significado de Dalasam, parte do nome artístico de Rico, que foi batizado como Jefferson Ricardo da Silva. Com o uso da abreviação dessa frase, a mensagem pode passar despercebida, mas o rapper explicou de maneira mais detalhada de quais sonhos ele se refere para você que é leitor do site Rap 071: “Eu estou falando de sonhos ligados a resistência. Sonhos ligados a uma forma de amar que é muitas vezes proibida. Eu to falando de uma forma de existir que muitas vezes é rejeitada, boicotada. Eu to falando dese tipo de sonho, que não era pra ser um sonho, era pra ser um direito. São conquistas, mas são conquistas ligadas ao afeto, ligado ao amor, ligado a um corpo presente dentro de uma sociedade, só que vivo e não sub-existente. Um corpo que existe plenamente, que transita, que trabalha, que compra, que paga, que ama, que desama, que opina, que vota, que tem direitos e que conhece seus deveres, enfim”.


“Eita, sou filho de mãe nordestina / Dei minha cara na medina

/ Pô, traição não combina / Eis aqui um negrinho cheio de querer”

(trecho da música Riquíssima)

Por ser filho de baiana, fica fácil de entender essa relação orgânica que Rico Dalasam tem com a Bahia. Apesar da sua mãe ter ido para São Paulo muito nova, seu jeito nordestino de lidar com a vida permaneceu e foi passada para ele. Modo este que Rico entende ser mais legítimo e diz fazer mais sentido que a vida em São Paulo, por exemplo. Então pode-se dizer que há uma identificação direta com os baianos e com a cultura da Bahia. A primeira vez que Dalasam veio a Bahia não tem muito tempo e foi para cantar. Aqui conheceu artistas que vem desenvolvendo um trabalho de relevância na cena do rap e da música eletrônica feita com base nos ritmos periféricos e de matriz africana.


Entre esses amigos que fez em solo soteropolitano, estão Mahal Pita, que também toca com Baiana System e o rapper Vandal. “Pra mim, a música feita aí (em Salvador) me aproxima da África. O ponto mais próximo que temos da África é a Bahia e se a minha inserção na música me conduziu a esse resgate, a esse retorno, o primeiro lugar que eu precisava passar na construção da musicalidade que eu queria apresentar, era a Bahia e nesse caminho eu conheci alguns músicos como Mahal e Vandal e estamos aí fazendo coisas juntos”, revela o paulista.

Mahal, inclusive, é um nome que aparece nas duas primeiras faixas do disco intitulado “Orgunga” (2016). O produtor musical baiano trabalhou em “MiliMili”, além de ter feito o remix da música “Riquíssima”. A Bahia já aparecia desde "Aceite-C", onde o artista usou o sample de "O Mais Belos dos Belos", música da rainha do axé Daniela Mercury. A conexão com a baianidade não acaba por aí. Portanto, pode esperar, caro leitor, que vem mais Bahia neste fervo paulista por aí!

Ouça o disco completo "Orgunga", de Rico Dalasam.

#LGBTFobia

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