Pé na porta, chegou o Bonde do Descarrego! – Nova geração fala sobre influências no rap, ideologias


Quem faz rap em Salvador sabe que a cidade não tem palco e evento para todo mundo que manda bem no microfone. Mas, quando a cena se depara com três caras os quais o mais velho tem 19 anos, e que estão, vira e mexe, sendo convidados para tocar nos eventos, significa que ali tem, no mínimo, som de qualidade e coerência nas ideias.

E é bem isso! O Bonde do Descarrego (BDD) completou seus primeiros quatro meses em dezembro de 2016 e já não é mais novidade no cenário do rap soteropolitano. "Nós temos pouco tempo de grupo e já estamos tocando. Isso é muito bom", comemora Vuto - Lukas Januário -, um dos Mc's, logo após apresentação na 116 Graus, no Rio Vermelho. Junto com ele, o bonde se completa com o também Mc Razz (Pedro Tavares, 19 anos), e com o Dj Doug (Douglas Caíque, 18 anos).


Apesar dos três representarem o grupo em cima do palco, Doug faz questão de frisar: "o Bonde do Descarrego não tem só três pessoas. É um bonde gigante". Isso porque os caras consideram que seus amigos e pessoas próximas que acompanham o movimento BDD também fazem parte da família, e por isso influenciam na evolução do projeto.

O primeiro contato desse elo aconteceu no Centro Educacional Patrícia Lima, escola no bairro do Brotas, onde Vuto e Razz se conheceram. "No início a gente tretava porque ele era do rock e eu do pagode, eram galera rivais. Aí começamos a colar nos mesmos grupos da cena e a maconha nos uniu", lembra Razz. Já o conector que trouxe Doug para perto de Vuto foi o skate, e por coincidência, logo depois eles estariam estudando no mesmo colégio também.

Mas, apesar da convivência existir de outrora, a data que marca o início do grupo é 13/08/2016, dia que dá nome à principal faixa do BDD. "A gente chegou numa noite, sentou assim...Vamos fazer uma música? bora! Fizemos um live e começar a descarregar as ideias, aí botamos o nome da live de bonde do descarrego. No final, olhamos um para cara do outro e decidimos que o tema seria 'o dia de hoje'", conta Razz sobre aquele sábado, 13 de agosto.


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Na faixa, em forma de melodia, estão as "gastações" que os três viveram nessa data, nada mais do que o reflexo das informações e realidades vividas por ambos. "Todas as notícias que rolaram naquele dia com a gente, fizemos várias referências com isso, sobre as coisas daquele dia mesmo", conclui Vuto.


Cantar sobre as suas vivências em áreas periféricas da cidade é o que o Bonde do Descarrego procura fazer em seus rap's. E o que não falta é inspiração, afinal, Cosme de Farias é o bairro onde reside dois, dos três integrantes que sobem ao palco, e quem mora em Salvador sabe que Cosme é um "prato cheio" para análises dos problemas sociais vigentes.

- "O BDD procura cantar o que a gente vive mesmo, tá ligado? Eu tenho muito apego ao rap por ter sido criado na periferia", identifica Razz. "Mas, não adianta ter um discurso muito inflamado, que não bate certo. O que não podemos é deixar existir uma bolha ilusória, sabe?", ressalva Tavares.

"Eu moro em perifa desde que eu nasci, tá ligado?! E eu vejo muito jovem que mora lá e ouve coisas sobre uma realidade que ele não vive, e tenta se adequar àquele bagulho". A fala é de Vuto e reflete muito sobre a missão pregada pelo Bonde do Descarrego quando o assunto é a proliferação da cultural marginal e das referências que servem ao povo oriundo das classes pobres da Soterópolis. O posicionamento fica subtendido também em suas letras, como no verso "antes de vestir, nós investe", de 13oito16.

"O mais foda é que a periferia tem uma identidade linda. Imagina se a gente pegar isso e exacerbar, mesmo, mostrar?! Precisamos fazer coisas sobre a periferia, sobre as questões afros". Lukas Januário (Vuto)


Não é à toa que Lukas Januário foi o agente pivô nessa união que hoje resulta em rimas em cima de batidas. Apesar de ser o mais novo do grupo, a sua habilidade para compor e sua boa articulação com outras pessoas do rap acabaram por favorecer a sua iniciação do cenário, e impulsionou também a formação do Bonde. "Eu sempre tive acesso a escrever e a ouvir música, mas a primeira faixa que eu soltei não tem nem um ano, foi em 25 de dezembro do ano passado (2015)", comenta. Dentre as parcerias de microfone, destacam-se as faixas Não Pode Explanar, com a participação de Andrei Losty, e Elevações Espirituais, junto com Mobb.

Já citado como parceiro de Vuto, a boa relação de Andrei Losty com o BDD se estende aos demais componentes. Amigo dos três, Losty também participou da música Julga Mais, ao lado de Pedro Razz, faixa que marca o início da carreira de Razz. "Aos oito anos de idade meu pai me deu um disco de rap e disse que eu ia gostar. O amigo dele tinha um grupo. Eu comecei a ouvir e 'castelar' nas músicas", relembra Tavares. "Outro momento que foi muito importante para mim aqui em Salvador, foi ano passado (2015), quando a gente conheceu Mira Potira e Cíntia Savoli", reflete sobre as suas influências e admirações do rap soteropolitano. Além de Mobb, Losty, Potira e Savoli, o BDD se inspira também em D.D.H, Contenção 33 e Ugangue.


Outro Mc baiano que tem influência indireta no som do Bonde é Baco Exu do Blues, não somente por suas letras terem ampliado os horizontes de Vuto, mas também pela brodagem de mesa de bar que o músico tem os moleques. "Eu sempre escutei muito rap, mas nunca fui presente na cena. Eu era mais ouvinte. Aí comecei a ouvir o som de Baco, do Universus, tá ligado? Perfeito! Daqueles sons que você entra em outra atmosfera. Foi ali que eu comecei a prestar atenção no cenário que eu vivia", revela Januário.

"Antes dele lançar Sulicídio a gente estava em um bar e ele comentou que ia botar o som de Igor Kannário em uma música. Eu viajei na ideia e quando ouvi Sulicídio saquei logo", conta ele que também é pagodeiro, Razz. O grupo identifica que o saculejo no rap nacional que a música de Baco e Diomedes Chinaski deu, precisa ser mantido e proliferado pelos novos grupos e a próximo geração. "O respeito não vai vir da noite pro dia. Sulicídio foi o primeiro soco, agora falta a gente nocautear, produzir e trabalhar", fala com o ar de promessa de uma geração que, assim como o rap, contesta.

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