Os pretos no topo: o coletivo de rap Underismo agita a cena local


Material produzido em colaboração com Isabela Gonçalves (@eitamundão).


Nos estudos sobre juventude, o cientista social Juarez Dayrell (UFMG) é uma autoridade, e já no início dos anos 2000, ele argumentava o poder que a música têm de mobilizar jovens, os quais criam novas formas de impulsionar “os recursos culturais da sociedade atual”. Neste sentido, os jovens criam redes de solidariedade e um mercado de consumo próprio. Sob esta perspectiva, acredito que os inúmeros coletivos de rap soteropolitanos da atualidade ilustram muito bem esta tendência apontada por Dayrell. Podemos citar a Underismo, Visioonarias, Contenção 33, Engenho Lírico, entre outros.


O coletivo Underismo é - dentre os citados - um dos que mais se destacaram na cena local, e foi criado há apenas dois anos. Formado por dez pessoas: Darlan (Senpai), Felipe (Ponci), Iago (Trevo), Alef (Ares), Caio (kolx), Adilton (Moura), Thiago (Alfa), Filipe Duarte (Flip) e Raísa Muniz - esses produtores - e Bruno (Nobru), que é técnico de som. Além deles, têm também muitos colaboradores, como o selo GANA, que tem como membros Mayara Ferrão, artista visual e Filipe Mimoso, produtor musical. Fotógrafos e videomakers trabalham em parceria com a Under. Felipe Correia, Gabriel Nogueira, Ramires AX, Fernando Gomes e outros já registraram o rolê dos meninos.


Foto: @sirc_heart

Musicalmente, o coletivo, de fato, faz jus ao nome: Underismo é uma palavra criada por Felipe Ponciano (Ponci) da junção de underground, termo em inglês que significa “subterrâneos” e “movimentos subversivos”, e liricismo, que remete aos MCs mais “complexos”, tanto na escrita e no uso de gêneros literários, como num profundo domínio de vocabulário.


Com uma “visão trigonométrica” (como não lembrar da canção “Movimento retilínio dos largados”?), poderíamos associar ao gênero lírico na literatura ocidental. Esta expressão nasce na Idade Média, é um dos três gêneros literários, ao lado do gênero dramático e épico. Do latim, o termo “lyricu” faz referência a “lira”, instrumento musical utilizado pelos gregos no acompanhamento dos cantos.


A produção lírica centra-se no eu e nas experiências individuais e subjetivas do artista, sendo temáticas recorrentes: a dor, a angústia, a alegria, ou seja, tudo o que expressa emoção e sentimento. É justamente essa conexão entre a subversão com os MCs de “alta performance” com o gênero lírico que resultou na essência do coletivo.


Que eles são fod*** ninguém discute (sou fã!!), não é a toa que “Resíduos” foi considerado como um dos melhores discos de rap brasileiros. Mas o destaque destes artistas, ao meu ver, não é apenas musicalmente e sim porque sintetizam um conjunto de fatores: o autodidatismo de todos, o modo como ocupam Salvador e principalmente a criação de uma estética underista. Esta última é obra de Caio Kolx (vulgo: torajjosu, responsável pelas artes visuais), influenciado pela arte neo-expressionista, tendo Jean-Michel Basquiat como um grande expoente.


Kolx: Parto do processo de desconstruir, tem foto de Ponci, Felipe Correia, Mayara Ferrão (GANA). Tive que aprender sozinho, desde pequeno no paint, fazendo as pinturas abstratas, foi um processo de autodidatismo.


Filipe Duarte (Flip) afirma que foi a péssima relação com os produtores locais que os impulsionaram a organizar uma festa para lançar o EP Resíduos (2018), que completa hoje um ano. O ápice desse desrespeito aconteceu quando a Under foi convidada a participar de um evento de rap e houve um atraso homérico (Ah, conta uma novidade aí, Flip!!), sendo que a produção os deixou sem dinheiro para transporte (e como voltar para casa de madrugada???!) e nenhuma consumação...uma cena lamentável!


Foto do primeiro Baile Underismo, realizado na Mouraria53

Flip: Nosso histórico dentro da cena foi lidar com produtores “c***”, sempre prometiam, falavam e nunca cumpriam. Entramos em parceria com a Mouraria53 antes do lançamento (do EP), para conhecer o projeto. A galera da Underismo foi chegando e metendo mão nos mutirões, para fazer com que o baile desse certo. O primeiro baile foi totalmente inesperado - foi uma surpresa quando deu 17h da tarde, a rua e a casa estavam lotadas e gente tendo que esperar na fila (devido a lotação).

Flip refere-se a parceria com a Mouraria53, encabeçado pelo arquiteto e artista plástico Pedro Alban, e uma galera que já meteu mão por dois anos, podemos citar nomes como Alan dos Anjos e Fernando Gomes. Trata-se de um projeto colaborativo de reforma sustentável (feita com os materiais doados e mão de obras de amigos e parcerias) de um casarão antigo em ruínas, no centro, na rua Mouraria (daí vêm o nome).


Alfa: A casa tava em ruínas, tudo caindo e o projeto dessa galera era botar essa casa para funcionar, saco? O principal objetivo foi auxiliar com a reforma e também ter um local que fosse a nossa cara, porque o que é mais underground do que esta casa? Uniu o útil ao agradável, amor à primeira vista.

Siga o canal da Underismo no youtube e fique por dentro dos novos lançamentos do coletivo.

Flip: É uma terapia estar aqui na casa, trabalhando. Acaba que para um jovem negro com seus 19, 20 anos que não está na faculdade, não tem um trabalho fixo, se sente mal, porque de fato, você não se sente útil, acaba que não tem um propósito. A Underismo deu um propósito para essas pessoas, a Mouraria também. O baile, a gente entende a importância do que estamos fazendo, do que estamos construindo.


Com o mote “é nós por nós”, os jovens artistas passaram a atuar como organizadores e produtores culturais do Baile da Under, que já teve quatro edições. A última, no dia 24/02, foi um tremendo sucesso e contou com o lançamento do novo single “Pretx chave”, em colaboração com a Produto Dugueto, marca de roupas da periferia de Salvador. A produção audiovisual tem a direção de vídeo e arte de Ramires AX, em co-produção de torajjosu e produção musical de Filipe Mimoso (GANA).



Hoje, o baile, além de ser um espaço que foi abraçado pela cena local, funciona também para captar recursos para a manutenção do coletivo.

Raísa: “O baile surgiu para divulgar o EP Resíduos, que chama Resíduos porque é uma junção de coisas que eles estavam fazendo e precisavam de um produto que unisse todo mundo. O baile tem funcionado como um financiamento do grupo. A gente consegue tirar dinheiro da bilheteria e a grana do bar para comprar equipamento, transporte, fazer reunião, ensaio, o que precisar para continuar produzindo. Conseguir se autofinanciar sem precisar de gente branca.
Detalhe de cabelo de Raísa. Foto: Vini (@vinilxius)

Sobre a questão de representatividade e o processo de ocupação da cidade, Alfa manda logo a real:

Alfa: "Uma cidade nunca vai ser projetada para um preto, mesmo que seja utópica. É meio que uma parada sobrenatural a forma que construíram Salvador para os brancos, para elite. Eu acho constrangedor para um estado que é o mais negro fora da África".

Visivelmente, a Mouraria53, um espaço de resistência cultural, que funciona como “sede” dos underistas, ficou pequeno para as edições do baile. Apesar desta mudança estrutural, a parceria com a Mouraria53 continua firme, Filipe é também produtor do local e literalmente coloca a mão na massa, contribuindo na reforma e organização do espaço.


Agora resta saber qual será a próxima localidade, com a mesma estética underista e que acomode confortavelmente todos. Uma coisa é certa, os cadeados foram quebrados...e com esse bonde, a cena de rap de Salvador nunca mais será a mesma (ouvi Lollapalooza? Não!! Queremos mais é Afropunk 2020!!).



Sobre a formação do coletivo, Senpai explica:


Senpai. Foto: @sirc_heart

Todo MC de hoje em dia, na maioria das vezes, começa vindo de batalha de MCs, antes de começar a fazer música, foi o meu caso e o caso da maioria da Underismo. Conheci Ponci nessa parada de batalha, fizemos amizade e tivemos a ideia de fazer o grupo com a identidade que a gente tinha. Eu já tinha conhecido Kolx, da batalha Cabeça Cara. Comecei a colar na Batalha do São Caetano, onde conheci Trevo. Mas antes eu estava numa banca, que tinha Filipe e Ares, da Matriz (Sussuarana), os dois trabalhavam com comunicação e design. Flip deu ideia de chamar Moura e o bonde tava quase todo fechado!

Conheça o Mapa das Batalhas do RAP071 e saiba onde está a Batalha de MCs mais próxima de você.


Alfa, “o garoto do meio” entrou um pouco depois. "Pelo quesito de eu ter ganho muitas batalhas (de MCs) aqui em Salvador. Aí acabei me destacando e troquei uma ideia com Senpai (da batalha Poca as Caxa)", relembra. A primeira participação do MC foi no dia da gravação da faixa “Freeverso”, no Campo Grande.



Planos futuros

Kolx. Foto: @sirc_heart

Kolx vai soltar uma demo em abril, segundo ele:

Kolx: É um projeto que se afasta um pouquinho do que é a Underismo propõe, é um projeto lo-fi. Vou lançar minha demo “Naufrágio na Crosttta do Ser”.

Em abril, rola o baile dois anos da Underismo, que vai chegar daquele jeito que geral curte, de uma maneira totalmente nova, em um outro pico, num sábado e com a mesma animação dos anteriores!


Músicas estão sendo produzidas, clipes, e muito mais...




Baile da Under. Foto: Gabriel Nogueira @leirbagseyes

PS: Incentive o jornalismo independente e acompanhe a lindíssima matéria de Danilo Cruz, do portal Oganpazan: Underismo é "as peça e o bicho"... destranca os cadeado.


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