Onde estão as mulheres do Rap-Ba?!

Fim de semana se aproxima, agenda de eventos e festivais de Rap circulam nos sites de notícia, nas redes sociais daqueles e daquelas que constroem a "cena" de Rap, e a pergunta que não se cala segue lá, firme e quase inabalável: "cadê as mulheres na line?". Se você ainda não reparou na ausência das mulheres na programação dos eventos, se contenta com a cota de "participação", e ou a proporção de 1 mina pra 5 caras (e estou pegando leve nos números), é com você mesmo que esse texto pretende dialogar! Mas se você já notou, melhor ainda, vamos construir juntos (as) a possibilidade de mudança?!


Há alguns meses, um festival de Rap de Salvador deu a brecha necessária para esse debate ganhar alguma visibilidade. Em dois dias de festival, cerca de 20 atrações, apenas 1 mulher. Questionados, colocaram mais uma "atração surpresa": uma mina branca e do sudeste. Não vou entrar nas considerações sobre o que significou a escolha dessa MC em resposta aos questionamentos do público. Quem tem compromisso com o RAP sabe. Mas a proposta atiçou um vespeiro e foi preciso uma mobilização para que algumas outras poucas mulheres, fossem convocadas para o time seleto desse festival.

Como disse no início, esse não é um privilégio de um ou dois eventos. Infelizmente, as programações do fim de semana continuam dominadas pelo discurso masculino. Não que os homens não tenham algo importante a dizer. Principalmente os homens pretos, que encontram ainda na arte, uma das únicas formas de livre expressão. Mas as mulheres também tem muito a dizer e não é de agora que reivindicamos um lugar além do refrão.

A propósito: Fazem feat, cypher, acham que é hit, mas não chamam as parceiras pra compartilhar o beat e ainda querem nos chamar de bitch!*

Esse é um verso de minha autoria que chama atenção pra outra questão: se fizermos uma retrospectiva dos lançamentos desse ano, quantas mulheres estão dividindo as faixas com os homens?!

As mulheres estão aí, fazendo som de qualidade, muitas vezes com um repertório pronto e nenhum som gravado. Por que? Posso listar uma infinidade de motivos, mas prefiro dizer que encontramos como solução até aqui, nos auto-organizar e construir espaços nos quais somos protagonistas desde sua produção. E tá sendo massa nos fortalecer, ter o trabalho reconhecido e mais: criar espaço para novas revelações.

Estes espaços e essa forma de trabalhar entre as mulheres não são novidade. As lavadeiras que o digam. Eles também não vão deixar de existir, e também não precisam. Como dizem as Visioonárias "as pretas tem pra trocar, toda hora". Mas só isso não é suficiente. Não queremos criar um divisionismo dentro de um movimento que desde sua origem tem como estratégia unificar um povo.


Acredito que a medida que essa troca começar a se ampliar, o movimento vai crescer, ficar ainda mais forte! "Mulheres pretas na linha de frente" não pode ser apenas um grito. Nossa marcha é todo dia, inclusive por nossas vidas, contra o Estado que nos mata, mas também coloca homens pretos contra homens pretos e mulheres pretas.

E é por isso que, mais que apontar um problema, venho refletindo em algumas medidas simples que podem ser tomadas pra mudar esse cenário. Não dá mais pra produtores culturais não pensarem numa line balanceada em termos de gênero (tendo atenção inclusive com inclusão de LGBTs). Mas se você, MC, é convidado prum evento e dá de cara com um cartaz cheio de outros MCs homens, que tal, ao invés de chamar outro brother para dividir o tempo com você, colocar uma mina na sua lista de parceiras. Assumam esse compromisso, ao invés de bater nas costas e apenas dizer que a gente manda bem.

A dica também serve pros feats, cyphers, e porque não pros Djs: quantas minas tocam no seu set? Que tal chamar nós?! Aproveitando a deixa, chama pra dividir as lata, o barro, os rolê tudo, não só quando tiver afim de pegar a mina, belê?! Fortalecer a amizade entre homens e mulheres é um importante passo pra fortalecer a nossa resistência!

*verso de "Mulheres sem medo - Moa Vênus feat Má Reputação"

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