'O Trem Bala' sai a todo vapor e leva letras diretas sobre a guerra nas favelas: "a mai



“O Trem Bala vai passar, melhor não se desesperar!”. O recado foi dado logo nas primeiras linhas por Xarope MC, e ele não estava errado. Ao lado de Jhomp (Nois por nois), Torre e High (Contenção 33), ele chegou com linhas duras para falar sobre a realidade vivida pelo povo preto na periferia e a guerra que destrói todo dia a vida de pais, filhos e famílias.

A cypher, lançada nesta semana com produção do Rap Cultura em parceria com o Rap Box, não tem muita enrolação ou meias palavras. Os rappers chegaram como um verdadeiro Trem Bala para deixar claro que o crime não compensa, é apenas uma situação ilusória. Mas entrar nessa vida nem sempre é uma escolha, principalmente quando já se nasce dentro da guerra entre facções ou diretamente com a polícia.

- “A maior ignorância são as facções... É uma forma que o estado tem também de nos matar. A nossa separação já começa por aí, a gente foi ensinado a não gostar um do outro”, explica o rapper Xarope, que decidiu criar a cypher ao lado de seus “melhores amigos” e contou com a ajuda da produtora Rap Cultura para gravar e divulgar o webvídeo.

Ele critica essa separação do povo dentro do próprio rap, onde alguns MCs ao invés de usar o movimento para a inclusão acabam boicotando o trabalho do outro. Se o próprio povo está se matando entre si, o genocídio do negro só aumenta quando a Polícia Militar entra na favela. Xarope diz que enxerga a PM como os Capitães do Mato da sociedade atual:


- “Eu hoje vejo que os policiais são pretos como eu. Se a polícia tivesse discernimento das coisas, seria o diálogo o caminho. Fazia um projeto na comunidade. E é o contrário, eles [A PM] fazem pior que o favelado que não tem instrução”, disse Xarope.

O rapper explica também que é importante levantar essas questões no rap, por ser um meio que dialoga diretamente com a periferia e foi culturalmente formado por negros. Além disso, esse discurso precisa reforçar a importância do respeito e da liberdade às mulheres, que, como ele conta, sempre trabalharam e guerrilharam pela liberdade do negro.

- “Eu, mais 70% dos meus amigos, não conhecia o pai. Porque os pais tombaram nessa guerra pela facção. As mães que sempre seguraram o B.O. e isso foi à vida toda. O povo quando é organizado e empoderado, as coisas fluem de outra forma e é o que falta para o nosso povo. E o rap não pode esquecer o seu papel”, pontua o rapper.


Sem sair do trilho e a todo vapor, o Trem Bala partiu das periferias de Salvador e ainda não tem sua linha de chegada. A parceria entre o Rap Cultura e os rappers Xarope MC, Jhomp, Torre e High tem levado diversos passageiros a uma reflexão sem volta. Sim, o descaso social nos leva a um caminho, mas não, a vida do crime não compensa!


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