O rap faz apologia ao crime, mas só para quem nunca ouviu o som e desconsidera a desigualdade racial

Atualizado: Jul 30

Em entrevista ao Roda Viva, Emicida foi questionado sobre o rap ser 'condescendente o crime organizado'


Nos versos de Fórmula Mágica da Paz (1997), escritos em parceria com Edi Rock, Mano Brown diz assim: A gente vive se matando, irmão. Por quê? Não me olhe assim, sou igual a você. Descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho. No trem da humildade, meu rap é o trilho. A mínima interpretação permite a conclusão de que a dupla, cabeça do Racionais MCs, problematiza um cenário em que semelhantes se matam. Ou que o rap, “o trilho”, vai na contramão da violência. Talvez, as duas coisas.


Mas para quem nunca ouviu Racionais - e Sabotage, Facção Central ou MV Bill -, o entendimento do que permeia o som, nessa e em outras faixas do segmento, não vai chegar. Não chegou para quem questionou ao rapper Emicida, na segunda-feira (27), durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, se o rap é “condescendente com o crime organizado” e por que “deixa de fazer”, à criminalidade, as críticas que faz às forças do Estado.


De forma didática, Emicida respondeu que a questão parte de uma análise “bastante preconceituosa”. O paulistano, um dos maiores nomes da atualidade, chegou a relacionar programas policialescos, como o Brasil Urgente, à citada apologia.


“Desde quando narrar uma situação que está vinculada ao crime faz de você um apologista [da criminalidade]? Se for assim, você tem que pegar o Datena, que faz isso todo dia. A música faz um retrato do lugar onde as pessoas vivem. Apologia ao crime é a forma como o brasileiro vive”.

E o brasileiro vive assim: metade da população - cerca de 105 milhões - ganha menos de R$ 15 por dia, segundo divulgou, em maio deste ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados sinalizam quanto à renda média real domiciliar per capita de 2019.


O estudo indica ainda que o trabalhador branco recebe 75% a mais do que os pretos e pardos. No Brasil, os pretos até saem na frente, mas só se for para encabeçar os números da violência. É que a população negra tem 2,7 mais chances de ser vítima de assassinatos do que pessoas brancas, aponta o informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça, também do IBGE.



Retrato

Emicida não citou números ou fez qualquer referência a eles, mas uma coisa é certa: basta ouvir Triunfo - A Rua é Noiz (2009) para entender que esta é uma realidade que ele conhece bem, assim como tantos outros artistas do rap. Ora, já que o rap é fruto da favela. Sim, porque a maioria da favela é preta - e disso todo mundo já sabe.


“Meu pai me disse: ‘Cuidado com essa pochete e esse cabelo loiro, meu filho, você não é branco’”, diz Djonga, na cypher Favela Vive 3 (2018).

O mineiro também dá um indicativo de como ser preto é estar sujeito ao julgamento pré-concebido, ou seja, preconceituoso - mas se você não acredita em Deus, também pode subir um parágrafo e reler os números oficiais.


Vejamos, se é a favela o cenário da maioria dos crimes violentos, e também onde a desigualdade grita, numa lógica que nem exige, assim, um raciocínio tão sofisticado, não é difícil entender o porquê dos versos refletirem, sim, a violência - e por que não a criminalidade? A título de não deslocar semente de raiz, como diria o saudoso Sabotage, rap é compromisso. Rap é realidade, portanto. É reflexo passível de entendimento - mas só para quem já deu ouvidos, no mínimo, aos pioneiros.


O retrato feito pelo grupo Facção Central, em Isso Aqui É Uma Guerra (1999), é direto: “É uma guerra onde só sobrevive quem atira, quem enquadra mansão, quem trafica. O Brasil só me respeita com um revólver”.


Quem me lê tem duas possibilidades: ou concorda que há apologia ao crime e desconsidera os números que escancaram as mazelas sociais, ou considera que há a narração de uma criminalidade praticada à beira do abismo histórico que existe entre brancos e pretos no Brasil.



À época, a Justiça de São Paulo agarrou a primeira alternativa e proibiu a exibição do clipe da música, sob a justificativa de que incitava a prática de roubo, sequestro, porte ilegal de armas e, pasmem, racismo - porque, sim, os representados eram negros. E a resposta veio em forma de faixa: A Guerra Não Vai Acabar. “Aí, promotor, o pesadelo voltou. Censurou o clipe, mas a guerra não acabou. Ainda tem defunto a cada 13 minutos na cidade entre as mais violentas do mundo”. Isso, em 2000.


Mais preto tem, mais preto morre

A realidade dos tempos atuais não se distancia tanto. A Bahia, onde uma em cada cinco pessoas se auto declara negra, é o segundo estado do país com mais mortos em operações policiais. As 260 mortes registradas nessas ações, de junho de 2019 a maio deste ano, coloca o estado atrás apenas do Rio de Janeiro, com 483 registros. A informação é da pesquisa Racismo, Motor da Violência, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, do Centro de Estudos da Segurança e Cidadania (CESeC).


E por aqui, também há espelho para refletir isso. “Eles queriam um mundo azul, mas nadam no sangue vermelho quente. Eles queriam um mundo blue, mas estão cegos, suas armas que matam a gente”.

As linhas de Mundo Moderno (2019), do Rap Nova Era, não deixam dúvidas: homem ou mulher, o alvo é preto. Homem ou mulher, o alvo é o gueto. Mas o Saca Só, também de Salvador, garante no feat Família (2017), com Vandal de Verdade: “Periferia é foda, nunca se entrega”.



Na parte que lhe cabe, o VERDADEIROH - com o perdão do plágio na grafia -, manda a canetada em quem não vive (e não sofre as consequências, portanto) o gueto que canta. “Você não tem gueto, você não tem rua, mais falso que o sósia do Guina (...) Você nunca viu um fura [metralhadora], vive reclamando como a vida é dura”.


Por falar em dureza e feat, na Favela (2007) descrita pelo Exaltasamba, junto com o Racionais, “o povo que sobe a ladeira, ajuda a fazer mutirão, divide a sobra da feira e reparte o pão”. Continua a rima: “Como é que essa gente tão boa é vista como marginal? Eu acho que a sociedade está enxergando mal (...) Nem sempre a maldade humana está em quem porta o fuzil, tem gente de terno e gravata matando o Brasil". Foi Péricles quem disse. E eu concordo.

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