No EP do “spray ao microfone”, Grafi MC espalha protesto em forma de arte


E se alguém te perguntar onde fica o bairro do Calabetão aqui em Salvador, você saberia dizer ou poderia orientar uma pessoa a chegar lá? Pois bem, é desse bairro que margeia a BR 324, que pelos seus aspectos sócio econômicos integra a periferia da cidade, que vem Robson Barreto (Grafi MC), mais um jovem negro que busca uma alternativa de vida em meio a cultura e a arte, para escapar das estatísticas do Mapa da Violência e seus números sobre os altos níveis de letalidade, que atinge principalmente a juventude negra de Salvador.


Grafi MC é Arte Educador e desde 2009 trabalha com a arte de rua, mesmo período em que teve seus primeiros contatos com o Rap, e influenciado por mc’s como Sabotage, Racionais Mc’s, RZO e o norte americano Notorious Big, Grafi MC resolveu trilhar o seu caminho no estilo musical. A sua vontade de compor e cantar surgiu da necessidade de expressar o que via e sentia no cotidiano da sua comunidade. O seu objetivo enquanto mc é permitir que as pessoas tenham a possibilidade de transformar as suas vidas por meio das mensagens, fazendo aquilo que é característico do Rap, unindo ritmo e poesia.


O nome Grafi vem da sua assinatura artística como grafiteiro, movimento no qual ele integra por meio dos grupos Traços de Rua Crew (TRC), Graffiti Classe A (GCA) e a União Nacional Crew. O seu estilo no graffiti é o Wildstyle, que surgiu em Nova York na década de 1970, as letras são ligadas umas as outras e setas são usadas na ponta final da escrita.

Grafi MC é atuante em 3 dos 5 elementos formadores da cultura Hip Hop, já que no Rap ele faz parte dos selos Otra Fita e Pelo Certo Rec. No mês passado, Grafi MC lançou em seu canal no Youtube o EP “Do spray ao microfone”, que foi mixado e masterizado no estúdio Terror Da Leste (TDL), por King Daka e Jader Beats, edição de capa e o lyric dos vídeos foram produzidos por Theeric Edition, a arte da capa foi feita pelo próprio Grafi e Ral.


O EP contém 4 músicas, a primeira é “Foda se o game”, em que Grafi delimita qual é o papel do Rap e o compromisso que o mc tem com a música, afirmando que o Rap é música de protesto, é a voz dos excluídos cujo objetivo é representar os menos favorecidos. Se a primeira impressão é a que fica, Grafi MC deixa muito nítido que fazer Rap é militância política contra as desigualdades e a opressão.


Entre outras faixas estão “QG dos bruxos”, “Poetas da cidade cinza”, gravada com a participação de MC Filó, na qual abordada os desafios de um poeta e grafiteiro vivendo numa sociedade conturbada como a nossa, onde a sua arte não é valorizada, mas que mesmo assim não desiste da batalha cotidiana de levar a poesia na música e deixar seus letrados nos muros. Ele fecha o EP com a música “Repressão”, que traz a denúncia nua e crua da violência policial nas favelas, em que os corpos negros são sempre os alvos das balas e suas mortes são justificadas pelos discursos de promoção da segurança pública: “Armados para a guerra eles pedem a paz, mas me mostre cadê a paz? Onde o negro na periferia é perseguido pelo capataz, pena de morte já foi decretada em qualquer quebrada na porta de casa”



Além do EP, Grafi MC também tem dois clipes no Youtube, “A firma é a soma” com participação de DoisAs e James Lincoln, e “Papoco de Glock” que tem as participações de Jader, MLK Bolado e Neto Kbção.


Por Henrique Oliveira, amante do Rap e colaborador do Rap071

Fotos: Divulgação / Por: Rafael dos Anjos (foto cantando) / Mariana Ellen (foto grafitando)

© 2020 - RapZeroSeteUm - Todos os direitos reservados