Manifesto e resistência: Engenho Lírico engrandece o movimento na faixa "Sangue de Luanda"

Não sou júri, nem juiz, pois eu nunca serei neutro. Sempre lutarei pelos meus, como assim fizeram os heróis do meu povo negro. Temos que ser a reação, pretos em ascenção - PODER PRO POVO PRETO! (Alança)



Atos de resistências, manifestos e representatividades do povo negro são fortificados no dia 20 de novembro, anualmente, em alusão ao Dia da Consciência Negra, que propõe justamente demarcar a importância do respeito, empoderamento e reflexão sobre a cultura disseminada pela diáspora africana no mundo. Para somar mais um grito vindo da Terra Mãe, o coletivo Engenho Lírico, de Salvador, aproveitou a data para lançar "Sangue de Luanda", que para além de ser uma música carregada de desabafos e denúncias nas suas linhas, é um projeto pensado nas suas mais distintas variações para que, de fato, tivesse a identidade e sentimento do que se canta em letras.


Preto livre, igual mutum. Se dizem ricos, eu durmo nos pés de Oxum. Somos pássaros livres, voamos alto, tipo Besouro, e explodimos prisões, tipo Django Livre.

(Apollo)


Escolher o Pelourinho, por exemplo, não foi a toa. Lá, onde negros seguiram escravizados desde 1549, quando Tomé de Sousa resolveu ocupar a região, também foi berço de muitos movimentos culturais e comunitários. "Foi pela importância histórica, por tudo que o Pelourinho representa. Ao meu ver, também há um lance de superar tudo o que aconteceu lá com os nossos ancestrais, que superamos, mas não esquecemos", explica Alança - Alan Carlos, 23 anos -, morador do Engenho Velho da Federação.


"Bolsonaro querendo deixar meu povo escravizado, quebramos padrões de beleza. Antigamente a TV era em preto e branco, aos poucos foi ficando menos preta. (Jack)


Organizar as agendas dos sete integrantes da faixa - Alança, Jack, Apollo, Luke, Cas, Odin e JayA Luuck - foi outra tarefa árdua para manter o projeto no trilho, já que o dia 20 de novembro se aproximava e o clipe, bem como a faixa, tinha data marcada para sair. Outro detalhe é que Darlan, o Senpai, ia participar da track, mas por outros motivos não pôde ir à gravação do clipe e gravará uma outra faixa, futuramente, com a galera do Engenho Lírico.





"A princípio, a ideia parecia muito maluca, a música poderia ficar muito grande. Mas a faixa não ficou enjoativa graças ao beat, justamente a variação dos mc´s, e a temática do Dia da Consciência Negra", conta Luke (Valter - 18 anos), mentor do projeto, que puxou o bonde.

Não adianta tentar comparar com sua vivência que é fictícia, claro que pra você é mimimi, nunca sofreu repressão da polícia. (Luke)


Senhor, vai se fuder. Você nunca passou fome no seu prédio. O segredo não é fazer mais presídios, é melhorar o ensino do colégio. (JayA Luuck)


O público vai encontrar nas inspirações e referências dos sete músicos de "Sangue de Luanda" alguns orixás, como Oxum e Oxossi, e heróis negros da história, a exemplo de Besouro - capoeirista baiano de Santo Amaro da Purificação -, Django Livre - filme que conta a luta de um escravo pela sua liberdade, e da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, assassinada em 14 de março deste ano. Situações de racismo e preconceito no cotidiano também são explanados na composição.


Nós vendendo sonho para quem vende desgosto. Um dia boto racista e dinheiro no mesmo bolso. (Cas)


O projeto tem poder de argumentação e de fala inquestionáveis, já que todas as fases da sua produção foram feitas por pessoas negras. Nos microfones, os sete mc´s são negros; o clipe foi dirigido por Vitor Carvalho, que é negro; os beats foram compostos por Jovem Black, tão negão quanto; a captação e mixagem foi feita com Dactes, no NaCalada Rec, não destoando dos demais. JayA Luuck gravou a sua voz no estúdio Terror da Leste, administrado por King Daka, preto.


Tudo tranquilo na Casa Branca, pretos com medo do capitão do mato. Alguns perderam suas resistência, do senhor de engenho viraram puxa saco. Alguns acham que são da elite, e que eles são da burguesia, resisto como Django Livre, quero minha carta de alforria. (Odin)


Gabriel Soares é jornalista e editor do RAP071 / Foto: Divulgação

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