“Evolução, evolução hip-hop”: Nas ondas da rádio e da militância com DJ Branco

Como afirma Jorge Hilton, cientista social, um dos fundadores do movimento hip-hop da Bahia e autor do livro "Bahia com H de Hip-Hop"(2014, relançado em 2018), a mídia teve um papel importante para difundir a cultura hip-hop, por meio do cinema, televisão e rádio. E foi pela emissora MTV que Dj Branco se conectou com o rap ao assistir o videoclipe "Diário de um detento", dos Racionais MCs.



A canção retrata as condições subumanas dos presídios e foi escrita com contribuição do sobrevivente Jocenir ao massacre do Carandiru, ocorrido em 1992. Após dois dias das celebrações do impeachment do presidente Collor, a polícia militar invadiu a Casa de Detenção de Carandiru (São Paulo) para conter uma suposta rebelião, assassinando, pelo menos, 111 prisioneiros (há estimativas em 280). Segundo George Yúdice, os jornais sufocaram o massacre, com um teor muito mais brando em comparação àquele do impeachment. Passados quase 26 anos do ocorrido, os mandantes do episódio continuam impunes.


Hamilton Oliveira, mais conhecido como DJ Branco, ficou impactado com a letra dos Racionais, com as imagens e com a crueldade retratada no videoclipe. Ganhou o CD “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais de um amigo e a partir daí, ficou viciado! Comprava fitas cassetes na Lapa - “Ndee Naldinho, Visão de Rua, De Menos Crime, Gog, Consciência X-atual, Rappin hood, MV Bill, Racionais Mc’s” eram sua trilha sonora. Hamilton conta que o hip-hop está presente em sua vida praticamente 24 horas.


“Com a Cultura hip-hop, a minha mente se expandiu, criei outras perspectivas. A gente que vem de periferia, sofre com todas as mazelas sociais praticadas pelo estado e com o racismo. Eu escuto uma música rap, me dá força de vontade e coragem para enfrentar os obstáculos”, declara Branco.

Caminhada


Nos anos 2000, todo sábado, ouvia um programa de rap de uma rádio comunitária de sistema de auto-falante no poste, no bairro da Paz, onde morava. Um dia foi conhecer a rádio e virou ajudante do radialista Nanal. Seis meses se passam e DJ Branco assume o comando do programa. Branco afirma que foi uma luta para manter um programa de rap na rádio, uma vez que o rap era considerado uma música “ forte e pesada”.


Em 2001, cria o programa “Hip-Hop na Paz”. Foi em uma entrevista, na rádio, com um grupo de rap feminino Hera Negra que soube das reuniões da Posse Orí (a primeira posse de Salvador) e das reuniões do movimento hip-hop na Comissão de Justiça e Paz (CJP) e no Passeio Público.


Em 2003, a rádio comunitária é fechada pela Anatel e Branco leva proposta do Evolução hip-hop para a Rádio Comunitária Popular FM, de Mussurunga. Depois de um ano, assumiu também o programa Reggae Popular e ficou lá até 2006. Em 2007, leva o Evolução Hip-hop para a Educadora FM 107.5


Ao se engajar nas reuniões da Rede Ayiê de Hip-hop, a maior rede de articulação do hip-hop na Bahia, que inclusive ajudou a fundar, Branco percebe a existência de um grande problema em todas as organizações do movimento social no Brasil - a comunicação.

“A galera produz muita coisa, tem muita produção intelectual, mas essas produções não escoam, não dialogam com outros públicos. A grande mídia não vincula essas produções”, acredita o DJ.


O ativismo político de Branco vem da luta comunitária por melhor qualidade de vida no bairro da Paz. Historicamente, é a segunda maior ocupação da América Latina. Ficou conhecida como Malvinas, e hoje é uma comunidade estruturada e que tem mais de 70 mil habitantes.


Branco conta com um currículo vasto - além de produtor e apresentador do programa Evolução HipHop, militante do hip-hop, é produtor cultural, comunicador social, arte-educador e mobilizador social.


As Batalhas de Mc´s para Dj Branco


“As batalhas de MCs são espaços de lazer e entretenimento dentro das comunidades, da carência de equipamentos culturais. Os MCs criam essas batalhas para encontrar a galera, para resenhar, e também para se organizar em coletivos, utilizam o microfone como uma arma para denunciar injustiças sociais.

O movimento hip hop sempre ocupou as ruas. Cada comunidade que você chega hoje, tem MC rimando, um grafiteiro, um b-boy, seja na zona rural ou urbana. É uma forma de ocupar espaço, é questão de afirmação de sua cultura e identidade.”


Casa do Hip-Hop da Bahia


Já sobre a recente conquista da implantação da Casa do Hip-Hop da Bahia, Branco é enfático: é resultado de muita mobilização e luta. O imóvel foi cedido pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SECULT/BA), a Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), e Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI).



Esse processo foi dialogado com o movimento hip-hop durante anos, defendido nos espaços de participação política e controle social, a exemplo de congressos, seminários, conferências municipal, estadual e nacional, no início do governo Jacques Wagner (PT), o diálogo começou a avançar. Muita gente do hip-hop desistiu no meio do caminho, mas Branco foi tocando o projeto e em 2010 retomou o diálogo com o deputado federal Valmir Assunção (PT), que lhe ajudou no processo.


O espaço será no Pelourinho e quem irá administrar é CMA Hip Hop – Comunicação, Militância e Atitude Hip-Hop. O casarão antigo que abrigará a Casa do Hip-Hop cedido pelo IPAC passará por reforma para funcionar. A previsão é que inaugure ainda no início de 2019.


Para isso e outras demandas que serão necessárias ao funcionamento da Casa, uma parceria via Fundação Cultural do Estado (Funceb/SecultBa) viabilizou a liberação do recurso para reforma, via emenda parlamentar articulada pela diretora-geral da FUNCEB, Renata Dias junto ao deputado estadual, Rosemberg Pinto (PT).


A parceria será ainda maior: para dinamizar o espaço, serão realizadas ações socioeducativas e formativas na Casa do Hip-Hop, além de oficinas de elaboração de projetos audiovisual, de comunicação, dentre outros. Outro importante ponto da parceria é o Pouso das Artes, que receberá artistas do interior que vão fazer oficinas e intercâmbios artísticos na Casa do Hip-Hop.


“A casa do hip-hop será um polo de formação, um espaço de referência do movimento hip-hop e da juventude do Estado da Bahia. A gente vai trabalhar com arte, educação, empreendedorismo, tecnologia da informação, oficinas, palestras, mostra de vídeo, lançamento de livro, sarau de poesia, estúdio multimídia, loja colaborativa e também um memorial”.


Por Regiane Miranda, pesquisadora em Cultura e Sociedade e colaboradora do RAP071

Fotos: Divulgação


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