Em resposta a rima sobre estupro, Bonde do Descarrego manda recado: “meça suas palavras, as amigas e


A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil, mas esse dado alarmante não parece ser suficiente para evitar a apologia ao estupro fantasiada de rima. Caso recente disso foi quando o MC Pelé Milflows disse ter estuprado a irmã do seu adversário, e sair aplaudido pelo público presente na Batalha do Tanque-RJ. Mas, dessa vez, sem tomar o espaço das minas, a resposta a Pelé MilFlows foi dada aqui de Salvador, mais precisamente pelo grupo Bonde do Descarrego. Confira:


Apesar do foco ter sido o Pelé MilFlows por conta da situação durante uma batalha, a ideia principal da música é chamar atenção e levantar o debate sobre a cultura do estupro e da violência a mulher. Em um bate papo com o RAP071, Pedro Razz e Vuto - MCs do grupo B.D.D- contam sobre a intenção da diss e como o cenário do rap se encontra misógino.

De início, eles já afirmam: "Obviamente, visibilidade temos menos que o Pelé por não ser do eixo, logo é facilmente abafado... Porém, se uma pessoa capta a mensagem e reavalia seus atos, o som valeu a pena”


Entende-se que em batalhas de rima, a troca de ofensas e desrespeito é permitida, porém, o fortalecimento da cultura do estupro, que perpetuam o machismo, não deve ser entendido como uma simples ofensa, já que, a reprodução do machismo dentro do Rap vem sendo quebrado pelas mulheres, que cada vez mais tomam seus espaços e representações.

- “A misoginia sempre existiu no rap, mas hoje vivemos uma nova era. Não foi o primeiro caso que aconteceu, há muito tempo isso ocorre, mas vivemos numa geração onde a informação e o outro lado chegam a gente. Não é mimimi, eu como homem escutando essas rimas, penso em minha mãe, minha prima, e em outras mulheres que passam por isso, que saem na rua e tem que ter algo para se proteger, pois pode ter o seu corpo violado. Isso pra mim é crime e reproduzir isso como artista, tem que ser barrado” disse Vuto.

Além disso, Razz fala um pouco sobre o paradoxo em ser homem e reprimir atitudes machistas de seus iguais na sua diss e a importância de escutar e tentar entender a opressão sofrida pelas mulheres. "Obviamente, sou homem numa sociedade machista, então tenho privilégios nessa lógica, sabe? Todo mundo submetido à sociedade é submetido a refletir suas opressões, o machismo é algo perpassado tanto por homem quanto por mulher, mas sou eu, enquanto homem, que levo vantagem com isso", comenta o rapper.


Razz avalia que grande parte de suas atitudes e condutas continuam sendo machistas, mas que busca sempre escutar e aprender com as minas que estão ao seu redor tanto dentro do movimento hip hop quanto dentro de casa. "Tive mulheres ao meu redor que me deram a oportunidade de aprender muito sobre o que não vivi, sabe? Então consigo tentar entender o que as mulheres passam, mas mesmo assim no dia-a-dia sou machista como qualquer outro homem, mas como disse, procuro sempre escutar e aprender”, finaliza.

Apesar dessa visível separação de gênero, na cultura hip-hop tem espaço para todxs. As minas estão e continuarão tomando o seu lugar, mostrando para que veio e cobrando toda e qualquer forma de machismo. Se não quiser ouvi-las, o Bonde do Descarrego já mandou o recado: “meça suas palavras, as amigas estão chateadas”.


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