Aprenda sobre networking com Sista Katia | O poder das conexões no mercado cultural

Atualizado: há 5 dias



Como sempre, Visão Tá Cara, e hoje a ideia quem dá é um dos maiores referenciais sobre conexões profissionais que nós temos na cena underground de Salvador, Sista Kátia. Grafiteira e criadora do termo “conectora urbana”, que surgiu para nomear o que faz há mais de 10 anos, hoje ela consegue monetizar a sua habilidade: conectar pessoas.


O texto de hoje não será sobre como alimentar o ego do show business, ou se relacionar à base do interesse para alcançar espaços e crescer, ok? - Mas em outra oportunidade, vamos falar sobre isso porque é uma pauta importante e nociva do mercado cultural. - O papo que troquei com Sista foi sobre desenvolver relações positivas e sólidas, sobre admiração mútua e respeito pela caminhada de cada um.


O real significado de networking


Existe uma confusão grande em torno do significado e da aplicação do conceito de networking. Segundo o Google, esse termo fala sobre a capacidade de estabelecer uma rede de contatos com pessoas que têm interesses em comum aos seus. Essa conexão é um sistema de suporte onde existe a troca de serviços, informações e oportunidades entre os indivíduos. Mas, muitas vezes o imaginário que rodeia a mente das pessoas é sobre pongar no corre de alguém e sugar informação, ou “sufar no hype”. Tô errada?!


Acho que eu não preciso explicar o motivo dessa mentalidade ser ruim, certo? Confio em vocês! Mas, vou dizer porque essa prática atrasa o lado do mercado e de quem quer colar de bonito no trabalho que não construiu. Só fica de boa quem realmente está no corre. Afinal, imagem pode até começar no primeiro raio-X que a gente faz de alguém, mas não termina no primeiro contato. Ou seja, se você sustenta sua imagem em cima de algo que não é real, com o tempo esse castelo entra em ruínas e você não vai colher os tão sonhados frutos saudáveis. Nessa lógica, o que fica é o descrédito no nicho em que está inserido e o sentimento de vazio por não estar construindo algo sólido, resultando na sensação constante de perseguição e de estar sendo copiado por tudo e todos.


Networking é puramente sobre entregar verdade nas trocas que você estabelece, sabe porquê? O mercado cultural, artístico e musical é um ovo e, pessoas conhecem pessoas, isso significa que seu currículo de pista tá na mão de geral. Não é do dia para a noite que se constrói relações profissionais sólidas, duradouras e benéficas. Cada pequena ação interfere nesse processo, todo mundo vê a forma que você se posiciona, da mesma forma que você vê o procedê dos outros.

“Tem uma galera chegando agora, que não conhece sobre a própria estrutura do Hip-Hop na cidade. A importância de Jussara Santana, por exemplo, para hoje conseguirmos pauta no Pelourinho.


São várias mulheres envolvidas nos processos que geral nem tá ligada, e tudo isso influencia no networking, e em como você se relaciona com as mulheres da sua cidade. Como é que você quer que sua festa seja pã e todo mundo vá, se você não vai na festa de ninguém, não fortalece o trampo de ninguém, não compra uma camisa, não vai em uma festa underground, não paga o ingresso ?”


- Sista Kátia

Pera! Vamos alinhar as expectativas para seguir o texto


Observe! Eu falar sobre isso no ínicio do texto não é sobre julgar a forma que cada um constrói sua caminhada, mas sobre passar visão do que realmente dá certo, embasada na minha trajetória e na entrevista com uma profissional que tem pelo menos 15 anos de pista, e agora começa a colher os frutos dessa caminhada.


A visão até aqui foi para te ajudar a receber o conteúdo de forma mais proveitosa, preparando sua mentalidade. Não tem vergonha em estar começando (eu estou), ou de já ter algum tempo no corre e ainda não ter “acontecido”, não tem vergonha em admirar o trampo de alguém. O grande erro é não dividir seu processo por vergonha, ou medo. Mister Cartoon, no filme documental sobre sua trajetória (LA Originals), disse: “Boa parte das coisas não tem haver com ser bom. É sobre seu momento e as pessoas que estão ao seu redor”. E isso você adquire trocando vivência, se abrindo.


Agora, seguimos.


Viver a cena para ser a cena


Uma das coisas mais pautadas por Sista Kátia na entrevista foi que, as pessoas precisam aprender a ser público também. Sendo o networking basicamente sobre trocas, é necessário que você conheça e valorize o trabalho das pessoas que quer trocar, sabe?

Onde você está circulando para que as pessoas tenham empatia com você e consequentemente consumir seu som? Ser artista, todo mundo é...mas o bagulho precisa circular, porque para a cena se manter a gente precisa ser a cena e consumir a cena”, questiona a conectora urbana.


Ela compartilhou que mais ou menos nos anos 2000 iniciava sua trajetória de rua, através do movimento punk e do skate. Uma das coisas que relembra dessa época é de fazer conexões no processo de produção dos eventos.


“Eu aprendi que tinha que fazer tudo do evento vei, o cartaz do show, chamar a galera, vender a bebida, produzir e se duvidar, ainda tocar na festa. Nisso a gente vai fazendo contato com a galera, precisando da ajuda de outras pessoas”, explica Sista.


Foi incrível adentrar um pouco mais na história de Sista, porque como ela mesma disse, isso é legado. As narrativas que a gente constrói na rua, faz parte da nossa história, mas também da história da cidade e do movimento que estamos inseridos. Isso é trajetória e conhecimento. Por isso te digo, se conectar com as pessoas precisa partir primeiro de uma predisposição sua, por exemplo, eu não poderia escrever tudo isso para você e saber mais sobre a visão de Sista, se não tivesse furado o bloqueio do contato. Muitas vezes deixamos o ego tomar as decisões e não nos permitimos demonstrar interesse nos “matches” profissionais que gostaríamos de construir.


Um dos melhores conselhos que posso te dar é: busque trocar ideia com as pessoas que estavam lá antes de sua chegada. Isso evita a prepotência e ajuda a multiplicar visão. “O processo é cíclico, cada um tem sua função nesses movimentos. E as vezes sinto que tem uma geração tá um pouco ingrata em relação a isso [ao papel de quem já constroi a cena dos tempos]. Na mesma geração, dos 3 últimos anos para cá, tem uma galera massa também, que mete os próprios eventos e chama outros grupos para fazer parte”, completou ela.


No geral, Sista falou bastante sobre como é necessário ser público consumidor da cultura antes de tudo, e também, entender a dinâmica do local que está se inserindo enquanto artista. Na visão dela, e na minha, é a melhor forma de construir essas relações, até porque as pessoas gostam de consumir artistas que sejam presentes e causem sensações reais. Seja pela curiosidade, por se identificar, ou porque te acha legal, ou te detesta.



A pessoa precisa fechar com você para existir conexão profissional?


Em Salvador, ouço muito a expressão “fechar 10/10 com o bonde” e sempre me perguntei o limite disso. O Hip-Hop, em sua história por todo mundo, tem o costume de adentrar a vida das pessoas em momentos decisivos, de transição e de dificuldade, e muitas vezes ocupa o papel de salvar vidas. O que implica diretamente nas relação com a cultura e com as pessoas que vivenciaram o início com você. Por isso, as expectativas acabam ficando altas demais para a humanidade de todos nós, partindo da ideia de que iniciamos esse momento jovens, em desenvolvimento. Diga-se de passagem, fazendo merda pra caramba.


Vejo uma pá de gente falando desse processo com certa mágoa e algumas decepções (não me ausento desse lugar). Mas, quando chegamos no ponto de compreender a cultura também, e principalmente, como mercado e trabalho, algumas crenças precisam ser ressignificadas. Eu não estou falando que sua família de rua não é sua família, nem que não pode misturar amizade e trampo (inclusive dá super certo, sabendo fazer). O que estou dizendo é que as relações e acordos precisam de delimitações, amizade é amizade, corre é corre. E no final é importante aprender com tudo isso, não se limitar.


Entendo que as decepções e falcatruas deixem marcas, mas isso não pode deixar seu mundo pequeno, ok? A gente acaba internalizando que fechar o cerco com poucas pessoas vai evitar passar por isso de novo… só que não, rs. A pista tá ai, é salgada e a punhalada quando vem, é de onde a gente menos espera. Então, será mesmo que é preciso fechar banca com alguém para ter uma relação de coração, saudável e profissional? Fica aí o questionamento.


Nesse contexto, Sista falou sobre a forma emocional que Salvador produz e a nossa dificuldade em se conectar. “No eixo Rio/São Paulo eles entenderam o lance como um trabalho, a arte como produto de troca. Aqui ainda existe aquele lance da arte conectada com a essência e a cultura. A galera quer viver do trampo mas ainda não tem uma visão mercadológica do bagulho, e acaba ficando tudo no nível da emoção mesmo. E por ter a realidade de ser tão difícil [fazer acontecer] e todo mundo fazer seu trampo tão sozinho, com seu trampo específico, acaba que ninguém se contacta mais”, reflete.


Não precisa ser amigo de infância de todo mundo gente, nem viver malocado na casa. Mas, precisa ser educado e verdadeiro na troca, beleza? Primeiro porque falta de educação é feio, segundo porque o mundo dá voltas. Por isso, para mim, a maior dica que Sista deu no bate papo foi: aprenda a ser público, admire o corre das pessoas. E, antes de expressar qualquer opinião publicamente sobre alguém, respeite a caminhada do outro, mesmo que esse outro seja desrespeitoso com todo mundo.


Exercitar a prática da diplomacia e não pessoalizar situações profissionais tem me feito um bem danado. Eu mentalizo “não é comigo, é com ela mesma [a pessoa]”, e “essa demanda não é minha, esse ranço não é meu”. Sabe porque faço isso? Eu me preservo emocionalmente e não me exponho sem necessidade, ou no calor da emoção. Não quer dizer que eu não sinta e somatize decepções, mas tento sempre tratar como qualquer outra experiência, isto é, mais um aprendizado.


A importância de ser autêntico e se associar com as pessoas certas


Chegando ao fim desse texto, eu quero te falar algo que sua mãe já deve ter dito. Saiba com quem você cola no rolê. Tente conhecer a trajetória das pessoas antes de associar seu nome, porque no final, a má conduta cai no colo de todo mundo, deu para compreender?


E para além disso, nós precisamos de verdadeiros cúmplices para compartilhar nosso valioso processo criativo. Para ser autêntico e ter um desenvolvimento exponencial, você precisa saber onde pisa, se não bloqueia o fluxo, né verdade?


Sista falou também sobre a importância e o diferencial das pessoas de Salvador produzirem com verdade, na essência da cultura e de si. E, como isso consequentemente leva as coisas para um lado mais emocional e pessoal. “Eu dou maior valor a forma soteropolitana de fazer música e arte, não é atoa que somos polo criativo”. Eu, Bea, acho também que precisamos alinhar as emoções para avançar, como diz Flora Matos ‘isso é convite para ser adulto’. Se relacionar sem birras e saber comunicar seus sentimentos e opiniões é provavelmente um ponto de virada da sua história profissional. Mas isso é só a minha opinião.


10 lições sobre Networking que aprendemos:


  1. Ninguém faz nada sozinho. Todo mundo precisa de uma rede de contato, apoio e confiança;

  2. Credibilidade na pista é uma das coisas mais valiosas para sua carreira. Mas, não acontece da noite para o dia;

  3. Networking é sobre troca de experiências e vivências. Se você mente por ai, as pessoas vão acabar sabendo;

  4. Não seja mal educado, porque é feio e o mundo dá voltas;

  5. Artistas precisam aprender a ser público. Para ser a cena, você precisa viver a cena;

  6. Até as falcatruas fazem parte do networking, foram aprendizados;

  7. Respire fundo e evite levar as coisas para o coração, porque nem tudo precisa ser cobrado;

  8. Seus amigos você sabe quem são, não precisa contar seus segredos para trocar referências e experiências profissionais;

  9. Saiba quem são as pessoas que você associa seu nome na pista. Porque é tipo enquadro, quando embola vai todo mundo;

  10. Tenha paciência e predisposição para buscar as conexões que deseja. Fazer relações de valor é parte da construção da sua carreira, leva anos.

Um pouco mais sobre mim…


Sou Beatriz Almeida e impulsiono artistas à alcançar seus objetivos profissionais. Jornalista e mobilizadora urbana, permeio o Hip-Hop baiano a cerca de três anos no lugar de observadora e potencializadora. Comecei escrevendo matérias sobre algumas atividades e pessoas aqui, fotografando alguns eventos ali, mas sempre buscando auxiliar a carreira de mulheres talentosas. Também tentava aplicar as ferramentas e técnicas aprendidas na faculdade de jornalismo e nos caminhos do empreendedorismo na trajetória do Coletivo Vira-Lata. Mais recentemente passei a experimentar o Hip-Hop do local de parte integrante e produtora, através da Coletiva ArMinina, hoje chamado de Selo Nsabas.


Se você gostou do conteúdo, quer elogiar, fazer críticas construtivas, mandar sugestões de temas, tirar umas dúvidas, ou apenas bater um papo, pode chamar no @ageminianaplanejadora, lá também dou outras dicas sobre planejamento e gestão de carreira. Tamo junto, e não é de boca!


Edição: Giovana Marques






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