A história do Hip Hop cobra postura da atual juventude repera

Atualizado: Jan 30

Reportagem de Beatriz Almeida e Regiane Miranda


Tempos difíceis sempre trazem movimentação, mudança. É dentro do contexto de retrocesso político que as mulheres do rap baiano voltam a se articular politicamente, deixando latente o 5º elemento do movimento: o conhecimento.



No último sábado (13/10), aconteceu em uma escola estadual de São Caetano a primeira reunião do grupo de mulheres que pretende dar continuidade a construção política e de registro do movimento hip hop na Bahia. No encontro, chamado de 'Convocatória mulheres do Hip Hop', memórias do período entre 1996 e 2011 foram trazidas. “Tem muita história para ser escrita de 2011 para cá, não tem registro dessa época. A gente precisa contar a nossa história, porque ela está se perdendo”, desabafa a MC do grupo Visioonarias, Udi Santos.

O encontro foi idealizado após a participação de Brena Élem e Udi no 6º Fórum Nacional de Mulheres no Hip-Hop e acelerado pela atual conjuntura política.


A presença de poucas mulheres da cena do rap soteropolitano diz um pouco sobre a realidade que o movimento enfrenta: desunião e falta de articulação para atuar enquanto coletivo cultural. O hip hop nasce de um movimento político, que engloba a construção social, porém com o processo da industria musical na cultura o foco principal vem se perdendo. “A essência do rap é protesto, luta e revolução, esses princípios devem ser o alicerce. Momentos como esse convoca mais ainda essa responsa”, visão passada pela rapper Janaina Noblah, que também marcou presença na reunião inaugural da articulação de mulheres do hip hop baiano.

História e continuidade de uma luta coletiva


Ao que tudo indica, a palavra do momento para o movimento hip hop é articulação. “A gente não vai conseguir ter avanço se a gente só pensa na nossa própria melhora”, explica Udi. A pesquisa coletiva, seja por leitura ou na oralidade dos mais antigos, para que jovens MCs, b-boys, grafiteiros, pixadores e consumidores da cultura conheçam da história que a Bahia já desenvolveu, é fundamental.


Apesar de não ter estado presente no evento, poetisa Amanda Rosa se posicionou de forma semelhante ao que foi conversado no encontro:

“A gente só observa o que estão tentando fazer com o rap agora. Separá-lo do hip hop e colocar como mercadoria, alimentando na gente, valores que não são nossos, individualismo, ostentação e uma série de coisas que ouvimos por aí que não nos traz bons fins. A gente que tenta viver disso, precisa de nossa renda sim, mas precisamos saber como fazer isso sem deixar que o capitalismo tome conta como tomou de tudo,” explica a artista, Amanda Rosa.

Os relatos da história do hip hop baiano mostram que nunca foi só rap, ou só break, as coisas aconteciam de forma integrada e política. Há fotos e artigos que comprovam a veia organizacional do movimento na Bahia.“Eu sempre acredito que o caminho pra qualquer coisa, primeiro é estar junto, é o fortalecimento entre nós para juntas entender a da qual é. Acredito que a cultura pode fazer vários bagulho louco de bom, é possível atingir de norte a sul”, sugere a poetisa e MC, Amanda Rosa.



Mulheres do rap baiano contra o fascismo


Alguns nomes do movimento se posicionaram sobre o momento de retrocesso político e social que o país vem vivendo com a iminência da eleição de um candidato que não respeita os direitos humanos e tem colocações fascistas, as quais promovem a violência e enaltecem a ditadura vivida no Brasil, em 1964. Alguns desses nomes são: Karol de Souza, Drik Barbosa, Bivolt, Lady Laay, Mirapotira, Rubia RPW, Dory de Oliveira, Rincon Sapiência, Emicida, Mano Brown, Gog, Marcelo D2, Marcello Gugu, Diomedes Chinaski e outros.


Mano Brown: “Não jogue seu voto fora. Bolsonaro é o c*”. Vídeo


Confira algumas declarações dadas durante o encontro:


“Posicionamento é a primeira questão nesse momento, pois o rap não tem como apoiar um candidato como ele, esse posicionamento me refiro em shows, redes sociais, e na vida offline também. Exige realmente uma noção da nossa responsabilidade como influências e formadores de pensamentos para transmitir da maneira mais compreensível ao público a mensagem contra a opressão.” Janaina Noblah


“Precisamos nos preparar para a guerra que nunca estaremos prontos. Criar formas de organização em que a gente tenha compreensão de quem somos, que conheçamos o passado. É preciso primeiro, arrumar estratégias de burlar o estado para permanecer vivas e só então atacar o inimigo.” Amanda Rosa


“Não é preciso nem dizer que ele é homofóbico ou machista, ele é racista, o que engloba isso tudo. Para a gente, não tem a menor possibilidade desse homem ser eleito, a gente vai voltar a viver uma ditadura”, sintetiza a Visioonaria Brena Élen.



“Eu não sou petista, porém eu sei dos benefícios que o PT trouxe para a população de baixa renda e a população negra, eu fui jovem aprendiz, eu fiz curso técnico e faculdade pelo governo.” Udi Santos


"Os grupos minoritários dos Estados Unidos tem dito que foi uma perda muito grande ter Donald Trump como presidente, mas em contrapartida eles relatam que isso trouxe união. Os negros, latinos e LGBTs precisam se unir para se fortalecer “o meu ponto de esperança é que nesse contexto a gente se reconheça e se preocupe com isso,” Erica Oliveira.


O que foi discutido nessa reunião ?

Temas como a não articulação da Bahia para eventos nacionais, a falta de espaços de diálogo entre as mulheres para discutir a manutenção e visibilidade feminina no hip-hop baiano foram discutidos, além de uma rememoração do histórico de ativismo político do hip hop baiano. “O movimento hip hop precisa se reunir em espaços como esses, não necessariamente para falar de política porque isso é consequência, a gente precisa estar juntos para saber o que fazer. O que nós precisamos no momento é articulação”, sugere a MC Udi Santos.


Brena e Udi ao participarem do Fórum Nacional de Mulheres, perceberam o quanto a Bahia está sub representada em importantes espaços de diálogo do hip-hop nacional. “É foda chegar em lugares, vê vários estados unidos, chegando de tropa, e a Bahia só uns gatos pingados. E quando a gente fala que na Bahia está acontecendo, a galera fica como assim, eu não sabia, e eles não estão sabendo porque falta articulação.” Brena Elen.


Breve histórico do movimento hip-hop baiano:

2003: I e II Encontro Baiano de Hip-Hop na cidade de Itapetinga.

2004: III Encontro Baiano de Hip-Hop, em Vitória da Conquista.

2004/2005: Projeto “Quadro Negro”, em escolas públicas, discutindo “cotas”, “racismo”, “Universidade” e “Hip-Hop”, em parceria com a UFBA.

2005: III Encontro Interestadual de Gênero e Hip-hop, em Lauro de Freitas.

2006: Ciclo de atividades em comemoração aos dez anos do movimento Hip-hop na Bahia. 2009: Sarau Bem Black, coletivo Blacktude.

2010: Seminário “O lugar da mulher é também no Hip-hop”


Próximas ações

A ideia é fortalecer a cena das mulheres em todos os elementos do hip-hop. Na medida do possível, construir eventos coletivamente organizado majoritariamente por mulheres, cursos profissionalizantes, palestras e seminários. Cada mês um elemento do hip-hop será privilegiado, com a realização de batalhas: de rimas, de DJs, de grafite e de danças urbanas, além de promover oficinas de formação. Ao final do ano, espera-se realizar um Festival de Hip Hop, uma mostra das atividades que foram desenvolvidas ao longo dos encontros mensais.


II Convocatória - Mulheres que atuam na cultura hip hop

Pautas: Movimento hip hop em Salvador, parcerias, estratégias de crescimento, movimento nacional, perspectivas.

Quando: 24/10

Onde: Rua Marechal Floriano, 357 - Canela.

Horário: A partir das 13:00



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