"A gente é preto, de vida real mesmo", da afirmação ao enfrentamento; Xarope lança disco solo

Atualizado: 4 de Dez de 2018



Em um formato ainda novo no hip-hop baiano, o músico Xarope MC (Marcos Vinícius) realizou uma audição do seu primeiro álbum “Preto pra caralho”, na última quarta-feira (28/11). Mais do que uma festa de pré-lançamento, o disco foi tocado na íntegra pelo DJ Fábio Lima Angola (especializado em ritmos africanos), com comentários sobre as canções feitos pelo próprio Xarope MC. O cenário do evento não poderia ser mais adequado: no centro histórico de Salvador, no Pelourinho, no espaço colaborativo 'Coletivo de Entidades Negras', CEN, um reduto de resistência negra.


O evento, só para convidados, contou com a presença de familiares, amigos e parceiros musicais. A equipe do RAP071 esteve presente para conferir o disco em primeira mão e bater um papo sobre o processo do álbum, suas influências, o cenário do rap de Salvador e o atual contexto político.

Negro, periférico, filho de Ogum, Xarope MC está na caminhada da música há 18 anos, com parcerias que incluem o rapper Baco Exu do Blues, DJ Poeira e Banha (na canção Filho das Folhas). Antigo integrante do grupo Fraternidade Maus Elementos (F.M.E.), ele também fez parte do grupo Império Negro 1º, um dos primeiros da cena de rap a gravar um videoclipe em alta qualidade, lançado nas redes sociais em 2008, "Desabafo do trabalhador". Além disso, o músico já tocou em grandes eventos como o Percpan, Circo Voador, Festival de Verão, Gaiamum Treloso, Rider, entre outros.


O longo tempo para concluir o trabalho solo foi parte de um processo de sua vivência, “o disco é um sonho desde 2008, que eu vinha tentando fazer ele acontecer, mas eu não tô na zona do artista privilegiado, nosso trabalho é muito mais árduo”, descreve Xarope MC.


O músico conheceu o movimento hip-hop em 1999, através das danças urbanas (principalmente com o breaking), depois com a pixação e com o graffiti, e foi amadurecendo seu trabalho ao entender as novas ondas que estão se formando no Hip Hop.




Carregado de papo reto, Xarope MC não economiza nas palavras de ordem que representam gritos de resistência do povo preto quando afirma:

“Em um país onde a cor de papel se define como cor de gente, lamento informar aos desavisados que a época de ser preto acabou, agora somos todos pretos pra caralho".

Um álbum que coloca em prática todo o discurso de poder da negritude, o combate ao racismo e de religiosidade negra. Além disso, o álbum apresenta um caráter inovador através da junção de outras vertentes musicais como, o samba, o trap e muitos solos de guitarra.


Ouça aqui o álbum "Preto pra caralho"


- "Quis que esse trabalho fosse um grito de quem sabe colocar em cada verso um sentimento, uma realidade. Não pensem em um protesto e sim em uma exaltação: somos todos pretos".


O disco conta com “encontros proporcionados pela música”, como ele gosta de denominar, dos artistas Baco Exu do Blues, Djonga, Coruja BC1, Gaspar Záfrica Brasil e Denny Denan.



Sobre o cenário musical de rap baiano:

“Salvador é uma cidade linda, maravilhosa, porém ela é perversa, é racista, não dá espaço Existe uma cúpula dentro do hip-hop que não abre caminho. E aí a gente tem um problema sério que é de lidar, de pessoa para com pessoa, e aí a gente fica numa briga constante, se dividindo”.

Ouça a faixa de abertura do álbum:


“Aprendemos em Salvador a se digladiar, a gente não entende que, infelizmente, vêm dos nossos antepassados, que davam o tiro na nossa cara primeiro. Isso enfraquece o movimento hip-hop em Salvador, porém tem meninos maravilhosos, posso citar Lápide, sou apaixonado pelo trabalho dos caras, 16 beats, Nóis por nóis, Contenção 33, que eu particularmente acho que já deveriam estar em outro patamar do rap. Infelizmente, esse processo mercadológico da indústria não consegue abrir o olho para ver o novo mercado"


Sobre o momento político:

“O momento atual do país é muito crítico, é muito perverso, racista, homofóbico, xenofóbico, escroto para caral**, e principalmente com a gente que é preto e que não é privilegiado, que vem de uma camada social muito fodida, a diferença hoje de um partido da esquerda para direita é que aqui a direita é desgraçada e que a esquerda é menos desgraçada, só isso, entendeu?”


" Preto pra caralho" trás o que temos de melhor em nós: a fé no futuro, na família, em nós mesmos e, acima de tudo, nos deuses que nos regem.



" Quando eu descobri que era preto, quando eu li o livro do Malcom X, eu falei: Quero ser esse cara! “Preto pra caralho” é dizer a gente é preto, mas a gente não é preto comum, a gente é preto, de vida real mesmo"

Por Regiane Miranda e Isa Gonçalves, colaboradoras do RAP071

Fotos: Divulgação Ascom




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