Publicidade nos muros | Uma analogia entre pixação e a autonomia da marca pessoal

Visão tá cara, então pega essa visão sobre a construção da marca pessoal de um artista


“Em diversos momentos a gente se põe em dúvida sobre o que a gente faz, sobre quem a gente é. Mas eu acho que os melhores momentos são aqueles que a gente toma consciência de que, o que a gente faz é único porque aquele ponto de vista é só nosso.”

- Mina DB


Visão tá cara e o investimento de hoje é sobre a ideia de marca pessoal ou branding pessoal para a carreira artística. Esse conceito de nome estranho, criado pelo marketing, é basicamente o conhecimento e uso estratégico da sua história e skills (habilidades).


Ainda não entendeu?


Bem, essa técnica tem como norte o gerenciamento do DNA de uma marca, para que a mesma se torne um conceito conhecido, desejado e positivo. É usada por empresas e marcas, como Apple, Melissa e Netflix. Sabe por que as pessoas pagam 5 mil reais em um celular? Porque a Apple fez com que elas se conectassem profundamente com a ideia de tecnologia de Steve Jobs. Sabe por que a Netflix se coloca na internet como uma garota jovem e militante? Porque tem uma identidade sólida e estudada.


Isso também serve para nós, meros mortais e artistas independentes. Peço licença poética ao underground e aos não capitalistas, mas todos nós somos uma marca. E a ideia de branding pessoal se baseia exatamente nisso, usar sua imagem ao seu favor, para se relacionar ou vender. Alguns artistas se destacam por ter uma marca pessoal forte, a exemplo de Vandal e Mina DB, a escrita DOH VERDADEIROH não passa batida, assim como as simbólicas telas da pixadora que tem o vulgo Mina, o que demarca que se trata de uma mulher na pixação.

A marca Mina DB


Admiro a pixação desde que descobri sua existência, e acho também que é uma das formas mais literais e autênticas de eternizar uma marca. Você espalha um vulgo que representa quem você é, ou parte da sua personalidade, pelas paredes da cidade e quem passar por aquilo em qualquer ponto vai saber de quem se trata. Isso se a pessoa tiver conhecimento sobre os códigos dessa linguagem, se não tiver vai ficar sem entender nada mesmo, o que não é problema do pixador. Ou seja, a pixação tem sua identidade demarcada, seu público alvo específico e suas características conhecidas e exaltadas por quem a consome. Um ótimo exemplo de branding, pvt!

Quando você cria uma tag e a eterniza pelos muros da cidade, você cria também uma marca.

Aos meus olhos, Mina DB é um case de sucesso quando o assunto é consolidar uma marca na cena. Por isso resolvi entrevistá-la para falar sobre o assunto e trazer boas práticas para a marca pessoal de artistas independentes, vocês.


Mina é designer gráfica e tem aproximadamente 5 anos de pixação, uma artista visual completa. E nesse tempo, já alcançou o marco de ser uma mulher reconhecida na cena, majoritariamente masculina, além de ter suas telas em vários cantos da cidade. Também já foi premiada na principal festa de pixadores da cidade, o LAMA (organização disruptiva que não se trata apenas de uma festa, mas isso é papo para outro texto, rs).


Pense em você mesmo como marca


Cada característica, cada modo de fazer, cada hobby e conexão. Tudo sobre você faz parte da sua marca, que na verdade, é você. Que fique claro que o texto não é sobre se vender, mas sobre se conhecer e se transformar no maior potencializador da sua arte, se apresentando da melhor forma e utilizando uma forma única como principal estratégia, a sua forma. Já as ferramentas vão sendo adquiridas ao longo do percurso, de acordo com cada necessidade.

Naturalmente Mina DB se tornou uma marca. Exercendo seu lazer de pixar e seu propósito de provocar mudanças construtivas por onde passa, a artista se eternizou nos muros da cidade e nos espaços de cultura undergroud e autônoma. Algo que seria uma parte isolada da vida dela se tornou também comercializável, já que você consegue ver pelo menos uma camisa Mina DB em qualquer evento de Hip Hop que for em Salvador. Ela aplicou arte, propósito e estratégia em algo e vendeu a ideia com sucesso. É essa a fórmula mágica!



“A minha forma de fazer que vai individualizando meu trabalho, o contexto que estou inserida, para quem e com quem trabalho. Querendo ou não estou sempre trabalhando em prol dos meus interesses e do que eu julgo ser importante e interessante. A compreensão da minha identidade profissional como um todo e o meu diferencial, vai muito além da estética”.

E é sobre isso, que a sua assinatura no mundo seja facilmente identificada por quem você tenha interesse que seja atingido.


Bora lá! Construa sua marca pessoal


A primeira coisa é: começa em você. Antes de sair de casa, antes de abrir o celular e consumir conteúdo on-line, antes mesmo de você pensar em ser artista, o que você amava fazer quando criança e deixou de lado, a forma que sua família fez parte da construção do seu caráter e também sobre como a rua entra nesse processo. Então, é sobre se dar conta da sua trajetória e usá-la, afinal é o que você tem de mais valioso.


Construir uma marca pessoal positiva no mercado cultural de Salvador não é uma tarefa fácil, são muitas encruzilhadas que podem te levar ao fracasso, à descrença de um ambiente próspero, e até à dúvida sobre sua própria arte. Mas não é impossível! O que eu quero dizer aqui é que é tudo sobre como você administra as pessoas e situações que surgem no caminho. É tudo sobre você e as decisões que toma, o caráter que escolhe ter, a simpatia que assume ou a marra que passa.


Dessa forma, construir uma marca pessoal consistente e de credibilidade é a única forma de se manter ativo e em movimento no mercado. Independente de qual seja, sustente sua postura. Ainda na entrevista com Mina, ela contou que a pixação trouxe alguns ensinamentos para ela, um deles é sobre a importância de ser humilde e respeitar as pessoas, de saber chegar e sair em qualquer lugar, dialogar e não subestimar ninguém. “Isso é a base de tudo e o que faz toda diferença nas oportunidades que aparecem para você”. É aquela coisa de transformar uma oportunidade em acesso.



Posicionamento é o seu diferencial no mercado


Seu capital intelectual é a seu bem mais precioso e o início do seu caminho para o sucesso. Dito isso, perceba que ser honesto com sua criação e cuidadoso com as associações profissionais que faz não é só sobre esse papo de autoconhecimento ou sobre dormir tranquilo. É sobre o caminho do dinheiro!


Quanto mais sua realidade estiver alinhada com a imagem que você constrói para o mundo, maior é a probabilidade das coisas rolarem. As pessoas passam a confiar em você, a acreditar no seu trabalho e, falando sério, sabemos que o show business é totalmente sobre contatos e indicações. Mais para frente pretendo trazer um texto sobre como não depender apenas disso e ainda sim trampar com sua arte, mas agora é sobre postura e posicionamento. Vumbora!


Ou seja, como dizia minha parceira DelaRua, procure ideias boas para pôr na mesa, não só na mesa coletiva como na sua própria mesa interior. Use tudo de melhor que tem em você para fazer dinheiro com propósito. Completando o pensamento, Mina também diz:


“A particularidade do meu trabalho é justamente o tempo todo cruzar o que eu aprendi na rua e no ensino formal, trazendo o melhor desses dois lados”.

Dificilmente uma marca será bem sucedida em alcançar todos os públicos. Ao contrário do que muitos dizem, saber com quem vai falar te traz o benefício de um público verdadeiro e interessado em você. Por isso, não tente ser quem você não é, apenas por uma alucinação coletiva de hype, porque não vai dar certo mô, de verdade.


Cada vez mais as pessoas compram ideias e histórias, antes de comprar um produto ou serviço. Creio que na música isso sempre existiu, o fã quer saber sobre a vida do seu ídolo e vibrar junto. Então não seja rude com quem te acompanha meu bem, se conecte com pessoas de valores semelhantes aos seus, tenha interesse em trocar vivências.



Boas práticas para uma marca artística sólida


Se o Hip Hop te escolheu ou você escolheu o Hip Hop, você é abençoado de qualquer jeito. O rap pode ter salvado a sua vida, ter feito você despertar para uma realidade ou te conectado à você mesmo para se expressar melhor. Entenda a magnitude disso, e a incorpore no seu discurso, para além do coletivo, para além da música, é sobre você de cara lavada.


Fortaleça sua marca pessoal enquanto artista:

  1. Se conheça profundamente (características, gostos, opiniões, defeitos);

  2. Evite hábitos e pessoas que bloqueiam o seu processo criativo, Você deve criar sem juízo de valor, nem tudo é sobre perfeição ou reconhecimento;

  3. Comunique sua visão de mundo e de si mesmo;

  4. Reviva todos os dias quem é você e o que você quer É aí que o propósito ajuda a não perder a fé em si;

  5. Rememore o que já foi construído por você, o seu legado, músicas, textos, eventos e movimentos;

  6. Não tenha medo de assumir erros, reconhecer que falhamos só fortalece a visão das pessoas sobre nós;

  7. Aprenda a fazer networking;

Como fazer isso?

  1. Tenha um caderno sobre você e anote todos os insigths de autoconhecimento. Faça testes de personalidade on-line e anote também os resultados;

  2. Se isolar para criar é um bom método, e pedir opiniões só no final da produção.

  3. Exercitar se desprender do perfeccionismo, aceitar criar grandes bostas também é saudável, rs;

  4. Use o storytelling, a oratória positiva, o visual, suas redes sociais, o que for possível.

  5. Pixe a parede com frases que te motivam e relembram seu propósito, ou só cole papéis. Tenha amizades sólidas, e sempre que for necessário acione esse suporte para te lembrar do que você é capaz quando o surto bater;

  6. As redes sociais são ótimas para isso, voltar nas postagens, ou até mesmo pegar cadernos antigos e álbuns de foto também ajuda muito;

  7. Aderir o hábito de pedir desculpas quando errar, mesmo que em situações pequenas. Cultivar a humildade nas atitudes, leituras e posturas. Jogue no YouTube humildade e aprenda mais sobre ela;

  8. Tenha interesse em conversar com as pessoas, mesmo que você seja anti-social, não tenha vergonha de elogiar o trabalho de alguém e se aproximar. Peça a opinião de pessoas que você admira, independente da aproximação, com jeitinho e cautela é possível acessar. Se exponha para fazer conexões!

Usando esse direcionamento acima, quando dou mentorias aos projetos e artistas que me procuram, começo pela história daquela pessoa, tentando entender de onde ela vem, o que ela viveu e o que a levou até mim. Muitas vezes são artistas que estão passando por um momento de bloqueio produtivo, sem acreditar que o corre pode avançar. E, quase sempre nós descobrimos juntos que os motivos daquilo são mais profundos do que parecem, e que no final só depende de cada um ressignificar a sua arte e fazer acontecer.


O mercado está aí, quente ou frio, ele está pronto para novas produções, mas se você não sabe que local quer ocupar nele, ele ficará a dúvida sobre quem é você e onde deve encaixá-lo. Só você pode decifrar esse mistério!

Na visão de Mina, trabalhar com o que se gosta é um grande privilégio e isso te permite fazer com que as coisas se misturem e que as várias versões de você apareça nos seus projetos. Ela percebe a pixação como lazer/terapia, o designer gráfico e a produção cultural são os trabalhos formais, mas tudo se conecta de forma espontânea porque são coisas que já fazem parte dela.


“E poder trabalhar com todas essas possibilidades de mim, é o que traz o caráter único do que eu faço. Não tem muita gente fazendo as coisas da forma que eu faço, é espontâneo ao mesmo tempo que é intencional porque eu não quero que as coisas fiquem em caixinhas, quero que tudo converse mesmo”, explica a artista visual.



Segredo da autonomia: autodidatismo

Estou falando coisas que na teoria podem parecer fáceis, mas a prática são um verdadeiro jogo de xadrez interno, o que é ainda mais difícil. Por isso, para explicar esse ponto eu vou usar o verso de Thiago El ninõ que diz: “existir para nós é o ato de criar.” Não se acomode com um dom cera, não acha que domina uma arte, porque o talento é na verdade a aplicação de um dom. Aplicar algo requer aprimoramento e constância, se não é apenas você se expressando no mundo e não um produto, um conceito.


E para que sua arte se torne um produto robusto e sólido, você vai precisar dar alguns corres que talvez não estejam no seu repertório, mas com empenho e vontade, certamente será capaz de aprender. Seja produzir seus próprios beats, as artes de divulgação dos seus shows, ou até criar o macete do networking e das parcerias. Todo avanço precisa de esforço e estudo, infelizmente ou felizmente, acomodação é uma palavra que não dialoga em nada a realidade artística no país em que vivemos, e o quanto antes você aceitar isso, dói menos.


Eu e Mina DB concordamos que apesar da importância do estudo formal, a falta dele não precisa e nem pode ser paralisante. Reprograme sua mente todos os dias para o aprendizado, crie estratégias como o autodidatismo.


“Quando eu tenho dúvida sobre qualquer coisa a primeira coisa que eu faço é pesquisar, sem esperar que alguém me ensine. Ao mesmo tempo eu tenho consciência sobre a importância do aprendizado através da troca entre pessoas. Então, a visão mesmo é adquirir conhecimento de todas as formas possíveis. Por exemplo a prática constante de ir atrás de informação me trouxe algumas manhas de como pesquisar por algo, e costumo dizer que o autodidatismo me deu autonomia”, concluiu Mina.

Um pouco mais sobre mim…


Sou Beatriz Almeida e impulsiono artistas à alcançar seus objetivos profissionais. Jornalista e mobilizadora urbana, permeio o Hip-Hop baiano a cerca de três anos no lugar de observadora e potencializadora. Comecei escrevendo matérias sobre algumas atividades e pessoas aqui, fotografando alguns eventos ali, mas sempre buscando auxiliar a carreira de mulheres talentosas. Também tentava aplicar as ferramentas e técnicas aprendidas na faculdade de jornalismo e nos caminhos do empreendedorismo na trajetória do Coletivo Vira-Lata. Mais recentemente passei a experimentar o Hip-Hop do local de parte integrante e produtora, através da Coletiva ArMinina, hoje chamado de Selo Nsabas.


Se você gostou do conteúdo, quer elogiar, fazer críticas construtivas, mandar sugestões de temas, tirar umas dúvidas, ou apenas bater um papo, pode chamar no @ageminianaplanejadora, lá também dou outras dicas sobre planejamento e gestão de carreira. Tamo junto, e não é de boca!


Edição: Giovana Marques




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