O Rap da DONA: Gloria Groove quebra barreiras e preconceito para conquistar seu império



As palavras “rap” e “drag” parecem que não foram feitas para ocupar o mesmo texto. A “dona da porra toda”, mais conhecida como Gloria Groove, está aqui para provar que, além de ocupar o mesmo texto, o rap drag ocupa também o mesmo espaço e o mesmo corpo. Tem pouco mais de dois anos que a drag queen cantora de rap começou a conquistar seu espaço no meio do hip hop, mas como Daniel Garcia, seu nome de batismo, cantarola desde os sete aninhos.

Apesar de o rap estar num momento mais “democrático” - não só quanto às formas de produção, como também aos protagonistas da cena -, Gloria destina o seu “boom” ao fortalecimento da cultura drag e explica: “Comecei a desenvolver o trampo num momento que foi muito propício pro surgimento de várias drag queens, então eu diria que a notoriedade deve-se mais a cultura drag do que ao rap”.

Nem tudo são flores, aliás, nem tudo é glitter! Estamos falando de uma drag queen cantando rap. Daqui a uns anos pode ser que essa matéria seja motivo de muitas gargalhadas, mas por enquanto é necessário dizer que a representatividade LGBTQ+ foi tomada a pulso por artistas que também queriam usar o rap e a cultura hip hop como instrumento de transformação e, claro, de expressão.


-“Acredito que a bolha machista que se formou dentro do hip hop já estava com os dias contados quando começamos a adquirir nossa consciência e domínio de nossa própria criatividade, pois o rap em sua raiz não dialoga com ideais machistas, misóginos e homo/lesbo/bi/transfóbicos, e sim com a riqueza que existe em explorar ritmo, poesia, flow, vivências e verdades”, conta Gloria.

Enquanto o jogo vira aos pouquinhos, Gloria Groove segue “dando a cara a tapa” na tentativa de alcançar a “ascensão do império” com seu trampo e suas ideias bem dadas. Com apenas 22 anos e sem muito rodeio, a rapper chega e apresenta um trabalho maduro e consciente que traz questões não só sobre essa representatividade LGBTQ+ e ocupação de espaços, como também sobre relacionamentos e amor, sem deixar de lado uma boa “farofa”, como ela mesma reforça:

-“Eu sinto a necessidade de comunicar algo que faça a diferença, alinhando isso com a estética que se espera de uma artista drag. Quem já ouviu meu álbum sabe que eu não falo só sobre militância - rola uma ‘farofa’ sim -, mas que também tento não deixar de lado as pautas que fazem desse momento realmente revolucionário, que é falar sobre as nossas vivências”.


“Não tem mais jeito, vai ter que mostrar respeito”. Essa até que poderia ser uma frase da repórter que vos escreve para iniciar mais um parágrafo, mas é da própria Gloria, que na letra da música “Império” explica quem é, o quê é, para que existe e para onde vai suas ideias. O clipe, que já ultrapassou a marca de dois milhões de visualizações no YouTube, traz a representação de uma imperatriz-drag-afrofuturista que samba “na cara dos coxa”. O primeiro hit que estourou foi “Dona” e pelo título do single dá para imaginar do que se trata, mas se resta alguma dúvida, permita que a própria responda:


Gloria alimenta seu público com referências do pop e da arte drag, mas parte dessa plateia sentiu identificação total quando tudo isso se fundiu ao rap. Existe um público LGBTQ+ do rap que nem sempre encontra espaço e até pouco tempo atrás não encontrava representatividade na cena.

-“Começo a notar uma galera que se sentia meio que de fora do cenário ‘gay pop’ por ser gay e se interessar muito mais por hip hop, soul, r&b, e de repente esbarram com o meu trabalho e aí conseguem se sentir 100% parte disso. Assim como existe a pessoa que sempre gostou de pop, que se interessa por drag, e que acaba criando um vínculo quase que instantâneo com o trampo! Mas posso afirmar que por trabalhos como o meu, o público gay tem se sentido mais à vontade pra se aproximar da sonoridade do rap”, afirma.

A cantora ficou conhecida também por fazer covers das divas como Beyoncé e Nicki Minaj, que nem precisa dizer, mas já dizendo, são artistas que fazem parte da sua história com a música. Ao ouvir o seu primeiro álbum intitulado “Proceder”, é possível perceber que suas pesquisas musicais e referências abrem um leque bem grande, estilo drag mesmo, com o perdão da gracinha. Agora, trago verdades: Gloria é uma das artistas que têm agregado ao rap, brilho, inovação, consciência, resistência e representatividade - a última tendo sido citada só para não perder o costume de repetir essa palavra.

Ouça o EP "PROCEDER", de Gloria Groove.

-“Tenho um fascínio muito grande por flows diferenciados como Rincon Sapiência, BK, Spinardi, Nog... Ou Drake e Future pra citar uns gringos. E gosto de misturar isso com as minhas referências pop-chiclete cheias de hooks, drops, bridges e "meninices" (risos)”, revela.

Por falar em referências, a primeira delas é a sua própria mãe. A arte de soltar a voz foi estimulada dentro de casa, já que a mãe de Gloria também é cantora e, aliás, a escolha do nome artístico partiu de uma homenagem à sua mãe em vários sentidos. “As iniciais vieram primeiro, pois são as mesmas da minha mãe e queria homenageá-la nesse aspecto. Gloria vem da cantora Gloria Gaynor e da relação que tive com a igreja evangélica quando criança. Groove vem da minha conexão com a música negra e o nascimento do funk-soul nos anos 70, referências das quais me banhei graças a minha mãe”, explica a cantora.


Para Gloria é de extrema importância que pessoas como ela ocupem o cenário do hip hop. O fato de existirem artistas gays, trans, drags, lésbicas que já estão desenvolvendo seus trampos de rap ou de qualquer outro elemento do hip hop nos traz uma esperança de que existe lugar para todos, sim! Encontrar um ou uma representante do rap LGBTQ+ na região do nordeste ainda não é uma tarefa fácil, mas, para finalizar, GG deixa seu recado: “Essa vertente não pertence a nenhum grupo em particular. Tá ali pra ser explorada por qualquer figura que tenha disposição, entrega e - importante - o talento pra desenvolver a parada, independente de ser homem, mulher, trans, não-binário, ou até mesmo uma drag queen”.

#LGBTFobia #HipHop

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