Noite histórica, problemas antigos: veja os prós e contras da festa Nossa Rima


A festa “Nossa Rima” proposta pelo Coletivo OXE071, que aconteceu na última quinta-feira (06), na casa de festas Amsterdam, foi palco de um show histórico e de mais uma prova da heteronormativa e do racismo ainda presente nas casas noturnas do bairro mais boêmio da cidade, o Rio Vermelho.


“Não sei de onde nasceu essa situação, mas parecia algo bem específico. Tinha um acordo da produção com a casa pra, em necessidade de revista os artistas contratados, fazer isso na área interna do local e eles queriam nos prender na fila e abrir e para inspecionar nossas coisas lá,” relata Hiran, um dos mc´s presentes na line do evento.


Sobre o Nossa Rima


O evento que contou com as apresentações de Vandal, Makonnen Tafari, Biel Gomez, Zuhri, Hiran e Quebrada Queer, ficou manchado pelo desrespeito aos clientes e artistas. Houveram relatos de revista abusiva e questões como atraso por parte do espaço, bloqueio dos artistas retornarem ao camarim após o show e arrumação do palco para finalizar o evento ainda com Vandal se apresentando.


Os acontecimentos não tiraram o brilho e a importância do show para a comunidade LGBT e para o rap soteropolitano. Foi um momento histórico de representatividade, demarcação que o Quebrada Queer e Hiran vem fazendo dentro da cena nacional. Como o grupo traz no segundo single, “nossa união fez força, quero ver quebrar.”


Sobre a situação ocorrida na noite de ontem, Hiran disse ser uma sensação agridoce, pois trabalhou muito para realizar o melhor show e está feliz porque as pessoas foram, mas devastado pela situação, e explicita a indignação: “quero deixar claro o meu repúdio ao absurdo que foi ser destratado da forma que eu e os outros artistas fomos. Convidei um dos maiores grupos de rap do país para sofrer esse tipo de coisa na minha cidade. Fomos barrados de entrar no nosso próprio camarim, vai lá entender o porquê”.


O Coletivo OXE071 também se posicionou sobre as situações acontecidas na festa “Nossa Rima”. Leia a declaração na íntegra:


O Coletivo OXE071, ciente do seu compromisso em promover uma Salvador plural, representativa e igualitária, afirma não compactuar com a situação ocorrida na última festa do dia 6 de setembro, no Rio Vermelho. Destacamos que os eventos assinados pela OXE e realizados em qualquer casa, boate ou espaço de festas por nós acordados, são fechados com a operação de bar, limpeza e segurança SOB RESPONSABILIDADE DA CASA. Para o evento da última quinta-feira o acordo não foi diferente.


Somos totalmente contra qualquer tipo de preconceito, discriminação e/ou atitudes arbitrárias, respeitamos nossos artistas, estimulamos a cena musical, engrandecemos a cena local e promovemos o máximo de ações com foco no respeito às diversidades e a arte.


Estamos tristes e decepcionados com a casa, por isso, mesmo cientes que fizemos e promovemos o melhor, pedimos desculpas por todas as situações ocorridas e reforçamos o nosso compromisso em sermos a mudança, inclusive assinando novas festas em novos espaços.


Vamos em frente, porque juntos e juntas somos mais fortes.


Equipe Coletivo OXE071.


A assessoria da casa Amsterdam Rio Vermelho lamentou os ocorridos através da declaração:


A Amsterdam Rio Vermelho lamenta que clientes, entre eles dois artistas da festa Nossa Rima, co-produção com o Coletivo Oxe, tenham se sentido mal recebidos pela equipe de segurança da casa, na noite desta quinta-feira (6).

Nossos colaboradores são instruídos a revistarem toda e qualquer pessoa que tenha acesso ao espaço, seja atração ou não. Este é o procedimento padrão de qualquer evento, a fim de garantir a segurança dos próprios artistas, além dos clientes. Infelizmente, houve uma condução inadequada de parte da equipe, que acabou causando transtorno. As medidas para correção do erro já foram tomadas.

A Amsterdam nasceu abraçando a diversidade, em todos os sentidos, e assim ganhou destaque na noite de Salvador. Ficamos tristes com o ocorrido e as medidas cabíveis para evitar que situações como essa voltem a ocorrer serão tomadas administrativamente.


Assessoria do grupo San Sebastiam.



O grupo Quebrada Queer contou que desde o convite sabiam que o público não seria totalmente o LGBT, que acompanha o trabalho deles, mas também não imaginaram que a confusão seria por parte da produção.


“O que rolou ontem na Amsterdam foi uma falta de respeito com vários artistas, mas a gente entende que não tem nada haver com o público, foi um problema com a produção do lugar e a gente está muito ciente disso. A gente sabe que Salvador foi uma cidade que acolheu a gente muito bem e estamos muito apaixonados pela cidade,” divide um dos integrantes do grupo, Harlley.


Ocupar e resistir


Refletindo sobre a presença deles na cena, o Quebrada Queer entende esse momento como um marco tanto no rap nacional, como na comunidade LGBT, por gerar discussão sobre as coisas que colocam nas letras. Passando também pelos espaços que estão ocupando, grande parte homofóbicos e machistas,” nós estamos incomodando mas estamos ocupando todos esses espaços que por anos não tivemos,” desabafa outro integrante, Tchelo.


Falando sobre as referências do grupo, eles afirmam que não são só do rap e as inspirações também são as mais diversas, lembram quem veio antes e demarcam as mulheres nesse processo, como Rico Delasam, Rimas e Melodias e o Hiran, mas não deixam de citar os talentos ainda não descobertos. “Existem centenas de rappers incríveis lgbts pelo Brasil inteiro, o que falta são oportunidades para essas falas,” finaliza Tchelo.

Quem são esses caras ?


Canal feito 22 de abril de 2018, primeiro vídeo postado 3 de setembro, 187.763 visualizações em cinco dias. Essa é a realidade do grupo de rap Quebrada Queer na internet, o que não impediu que na vida real, primeira vez tocando na Bahia, fossem alvo de desrespeito no espaço que foram convidados a estar.


Hiran pelo mesmo caminho, rapper interiorano (de Alagoinhas, Bahia), ganhando os palcos do Brasil e finalmente tendo a oportunidade de representar o nordeste e preparar um marco histórico para o rap nacional e para a comunidade LGBT, sobretudo as bichas pretas periféricas que consomem rap.


“A gente tá invadindo. Os olhares estranhos ainda rolam, mas a gente resiste toda vez que chega pra cantar em um palco. E assim vamos crescendo, unidos,” afirma Hiran.


Apesar de CD lançado em março e muitos shows na agenda, quando perguntado sobre a receptividade da cena do rap de Salvador Hiran desabafou. “Os caras até então não me chamaram pros festivais, para as Cyphers, para os eventos, não me citam nas listas, mesmo que eu esteja conseguindo coisas grandes para representar a Bahia nesse cenário nacional. Eu tenho relações de amizade incríveis com o Vandal, o Galf, o Makonnen Tafari, a Aurea e mais algumas pessoas pontuais.”


Homofobia: da morte simbólica ao corpo tombado


Segundo o Relatório 2017 feito pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), 445 LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) morreram no Brasil, incluindo três mortos no exterior, em 2017 vítimas da homotransfobia. Foram 387 assassinatos e 58 suicídios.


Nos 38 anos que o GGB coleta e divulga dados, o resultado de 2017 foi o maior, um aumento de 30% em relação a 2016, quando registraram-se 343 mortes. Apesar do número alarmante, a região Nordeste baixou em 2017 para o terceiro lugar na média de vítimas por milhão de habitantes.


Quando não morto fisicamente, a comunidade LGBT precisa lidar com invisibilidade das suas pautas e as violências rotineiras. A morte simbólica que acompanha a vítima até o suicídio ou a impunidade do agressor/assassino.


Por Beatriz Almeida, estudante de jornalismo e colaboradora do RAP071 Fotos: Ítalo André

© 2018 - RapZeroSeteUm - Todos os direitos reservados