Membro do UGangue e Maus Elementos, Galf Aspecto fala da importância do coletivo no Rap



Galf Aspecto é daqueles rappers que é considerado e lembrado por muitos dos grupos, MC’s e DJ’s de Salvador. Além da carreira solo e das participações nos grupos UGangue e Fraternidade Maus Elementos, ele já soma mais de 40 participações em tracks e calcula participação em quase 80 gravações de músicas.

Ele lançou no meio deste ano o seu primeiro EP “Fragmentos de uma mente volátil”, que traz 13 faixas, com diversas participações. Ele conta que cada track do disco “envolve muita coisa de meu ser, e minha realidade, minha rotina onde cresci, onde sobrevivi, onde vi muitos amigos meus morrer perante doenças, perante o envolvimento com o crime”.

Apesar do carinho e da já presença marcante no cenário, Galf faz questão de lembrar as referências de outros MC’s na sua trajetória, como Daganja, Fall, Diego 157, Yuri Loppo e Kiko. Inclusive foi ao lado de Daganja, na música Ruas Frias, que ele conseguiu divulgar uma das principais mensagens do rap: a conscientização social.

O Rap071 bateu um papo com Galf Aspecto e não faltou assunto para conversar. O rapper contou a sua visão sobre o rap, sobre o cenário atual, sobre seu último disco e sobre a importância de grupos e coletivos. Confira a entrevista completa:


  • Você já figura na cena de Salvador há alguns anos. Como você vê o atual cenário do rap e do hip hop em Salvador? Acredita que está se propagando da forma que deveria ou há más interpretações do movimento?

Na verdade eu já tenho um tempo trabalhando no cenário do hip hop, não tanto tempo como muitas pessoas que já estão no cenário como Daganja, Mobbiu, Fall entre ouros... Eu comecei a fazer rap diante a influência desses caras. O que eu vejo é essa massificação do conteúdo pela internet e pelo pouco ativismo dos jovens diante da cena. Porque eu acho que a evolução está sendo boa - supostamente - pela internet, pela divulgação de sons e de ideais, mas o compromisso mesmo com o hip hop, com a periferia, com o gueto, isso tem diminuindo. E isso para mim é uma falha muito grande ao hip hop diante do rap e de todas as vertentes próxima à musicalidade e à periferia e à rua. Na verdade o que eu vejo mesmo na evolução do rap é justamente a felicidade que a gente tem hoje em dia que é estar formatando, fazendo o trabalho, gravando. E antigamente que a gente não tinha essa facilidade de estar gravando nosso material.

OUÇA O LANÇAMENTO "GUERRA DOS SERES"

  • Fale um pouco sobre o que você buscou trazer nesse novo CD. Tem alguma mensagem especial no EP ou cada música tem o seu significado?

As musicas da gravação do meu CD é uma coisa muito inusitada. Aconteceu que eu tinha envolvimento com outras vertentes, eu tocava hard core que é uma coisa muito restrita com analogia a mesma coisa do protesto, da denuncia que acontece no rap e no hip hop. Tem esse compromisso com o publico, com a periferia, com a desigualdade social, com a desumanidade. E a minha introdução do rap foi bem louca porque eu acabei entrando numa participação de uma música que outro MC faltou e eu acabei entrando e escrevendo na hora.

Eu tenho essa particularidade de estar escrevendo na hora, de estar aproveitando a minha energia pessoal, do momento. É bem a minha identidade mesmo marcar, ir no estúdio e gravar. Sempre que as pessoas me convidam eu priorizo escrever na hora, aproveitar a energia com a pessoa.

E o meu disco foi da mesma forma, eu tinha a idealização de fazer esse disco, mas comecei a escrever inusitadamente. Cada música particularmente envolve muita coisa de meu ser, e minha realidade, minha rotina onde cresce, onde sobrevivi, onde vi muitos amigos meus morrer perante doenças, perante o envolvimento com o crime. E eu acho isso um compromisso vital para mim estar sempre denunciando e falando sobre esse assunto, que é um assunto ainda muito polêmico e muito esquecido.

É muito fácil as pessoas esquecerem esses fatos perante uma mídia que promove muito circo, promove muita alegria, e não tem nenhum tipo de preocupação da favela, da periferia, pelo contrário. O que eles puderem distrair para ta tendo que escravizar a mente do povo com essa cultura exposta eles fará. Estou preparando outro disco agora que to caminhando esse trabalho com outra visão desse cenário, outra visão da vida. Sou pai hoje, tenho minha família e tenho outra visão do mundo. Quero mandar minha mensagem com outra visão do mundo, pelo menos uma visão promissora, uma visão com esperança.


  • Você traz várias participações no seu Disco e também participa em várias tracks de outros rappers. Como você vê a importância para a cena dessa parceria entre MC’s e até DJ's?

Quando eu iniciei minha caminhada fazendo a música rap, minha introdução no hip hop, eu tinha como complemento isso; participar com vários mcs para ter essa coletividade de sempre estar tocando, de sempre estar sendo influenciado. Porque eu acho que é muito mais além. Naõ existe esse negócio comigo de ego, de achar que um MC é melhor que o outro. Pelo contrário, eu tenho mesmo é admiração por vários MCs, por cada um ter sua identidade, sua escrita diferente, seu flow diferente. E tipo, minha meta com o tempo foi sempre fazer participações com MCs, com DJs, tanto que eu tenho mais de 40 participações, tenho mais de 78 músicas gravadas diante dessa comunhão de querer estar participando junto com outro MC, de tá transparecendo nossas ideias, de tá se completando.

Eu acho que a onda da participação é um complemento de um MC com o outro, o flow, a diversidade linguística, de diálogo, de informação. Realmente é muito importante e eu venero bastante isso e sempre que eu puder ainda estar no corre fazendo minha música eu vou tá expondo e trabalhando com outros MCs. Não só MCs, mas cantores, cantoras, DJs estarem envolvido em meu trampo, isso é muito importante, porque além de tudo temos que compreender que existe a união, a união para mim é muito bom tá no palco com meus amigos, tá no palco com outras pessoas fazendo aquilo que eu gosto que é a música hip hop.

OUÇA O DISCO "FRAGMENTOS DE UMA MENTE VOLÁTIL"

  • Você fez participação na música “Ruas Frias” de DaGanja, que traz uma mensagem muito importante para os jovens da periferia. Como você vê o Rap como conscientizador social?

Eu acho que o rap é uma grande ferramente de conscientização social, a gente conseguiu atingir muitas coisas com essas músicas ruas frias, as pessoas paravam a gente na rua dizendo que era um filme. Cobrando da gente para que aquela mensagem fosse determinada ou que aquela história tomasse outro rumo. E é uma realidade que a gente vê e já presenciei muitas vezes na periferia. Muitas pessoas tem a sua vida, tem a sua família e se envolver em treta na rua. De não ter uma expectativa de emprego, de não ter uma expectativa da prefeitura, do governo, de ajuda ou de uma manutenção o que seja. E se envolve da forma mais fácil que tem que é a esquina que é um dinheiro muito rápido, um dinheiro promissor, mas um dinheiro arriscado. Mas mesmo assim é a única oportunidade que eles tem e acaba se sujeitando a isso e perdendo alguns familiares e perdendo até a própria vida deles.


Eu acho que essa música ela teve uma mensagem muito importante e até os lugares onde a gente filmou, as locações que foi lá na liberdade onde as pessoas compreenderam a nossa mensagem. muitas crianças e muitos adolescentes tavam presentes também na gravação do clipe e a gente faz questão de demostrar o que q a gente estava querendo falar naquele clipe que era justamente resgate, que eram dois amigos que crescera juntos e tiveram vidas parecidas, só que um resolveu sair e se permitir a sair, trabalhar, a ter outro rumo, a não se envolver e a não se entregas as promiscuidades das coisas da periferia e o outro até mesmo por não ter essas oportunidades acabou ficando lá e esse amigo que conseguiu o emprego ele não esquece do amigo dele que tava lá e ele luta para tirar o amigo dele das mazelas de onde ele tá vivendo, que é o envolvimento com a droga e a destruição da família dele e ele com a cabeça quente, sem pensar, querendo destruir o mundo por conta disso. A mesma mensagem do rap é isso, a mensagem de esperança, de um novo amanhã, para não desistir, um passo de cada vez. Eu creio que seja assim, entendeu?!

  • E o que você acha das atuais letras de rappers que trazem o estilo luxúria?


Eu acredito na verdadeira liberdade de expressão. Cada um fala o que quer, compra o que quer, vende o que quer. Eu acho que toda atitude tem sua consequência, né!? Pra mim em primeiro lugar eu não acho que isso seja rap, porque o rap par amim não bate apenas do beat, para mim o rap é justamente o compromisso de antemão da denúncia da periferia, da denuncia do estado, da conscientização de quem não tem essas informações.... Se outras pessoas encaram isso como rap eu também respeito a sua opinião, mas quem me conhece sabe que eu sempre fui muito simples, sempre tive me caminhada voltada mesmo para o rap contra essas instituições que vem engando a nossa existência a gente da periferia, do gueto, dos pretos que vem sendo executado a todo momento.

Então para mim o rap é muito mais do que a batida, muito mais do que a grana que eles mesmo movem, muito mais do que as pessoas que se envolvem com isso e que tentam passar e aliciar muitas pessoas com essa onda de tênis, calça, cap ou a moda em si. Para mim a moda é uma regulação do consumismo, então se o rap é moda, parceiro, se o rap é consumismo, o que a favela não consegue consumir o que o rap está produzindo então para mim isso não é rap. A favela tem que ta aparte, o gueto tem que ta a parte, porque o rap é existente diante da luta da periferia, do gueto, da viela, da barricada, onde for. o rap para mim é o resgate, é a libertação da mente, a abertura diante do conhecimento e saber que a gente não tá só nessa luta que a gente tem nosso companheiros que só a mesma linguagem e a gente se conhece. par amim o rap é vida, o rap é renovação da mente marginal mesmo. de não aceitar o que falam e de questionar. então para mim o rap com luxuria, o rap egocentrista tá mal, mano. pelo menos é essa a minha opinião.

  • Você também faz parte dos grupos UGangue e Maus Elementos. Queria que você falasse sobre a importância de grupos como esses para o fortalecimento do cenário e qual o poder social que podem/devem trazer para a comunidade.

Eu faço parte desses grupos justamente por eu admirar muitos MCs, a sua métrica, a sua formulação de levada e de rima e isso para mim sempre foi bom estar no palco com outras pessoas, esse bate cabeça mesmo que a gente faz. E a importância diante das comunidades e a gente acaba levando. Cada um leva para as suas comunidades um pouco do outro, né?!. Como era o UGangue: a gente vinha aqui para onde eu moro na cidade baixa onde tinha MC da cidade nova da liberdade, do centro. E cada um leva um pouco de cada um para o seu espaço, pra o seu habitat e eu acho isso muito importante e além de tudo a confraternização, né?!.

A verdadeira fraternidade de estar coletivamente se envolvendo com pessoas que tem o mesmo ideal que você, com pessoas que tem o mesmo objetivo de estar querendo mostrar a periferia da melhor forma. O que que o rap tenta transparecer, o que o rap tenta falar diante das melhorias, diante da união, dos propósitos que a comunidade deve ter para conseguir reagir diante de tanta desigualdade e pra mim é sempre bom estar fazendo participação com outras pessoas e gente de grupos.


Infelizmente tem se diminuído mais esse fluxo deu, Galf AC, estar me envolvendo com outras pessoas diante da minha condição de vida. Hoje em dia com minha família, mas eu tenho o meu trabalho solo ao qual eu venho me dedicando bastante, tenho trabalhado bastante. Por conta de eu estar s´e estar desenvolvendo melhor as coisas, mas não descarto de maneira alguma de estar me envolvendo com outros MCs, independente de qualquer outra coisa, se eu tiver afinidade eu sempre vou tá me envolvendo com outros indivíduos para estar gravando e produzindo rap diante do meu conceito que é um conceito mesmo de libertação, um conceito de estar amadurecendo mesmo. Eu tenho uma cobrança muito grande diante do meu trabalho. Brevemente vai sair o meu próximo disco e quem acompanha o meu trabalho vai reconhecer que foi uma amadurecimento muito grande, eu venho falando de outras propostas, vem falando de esperança, vem demonstrando o valor da natureza diante das nossas vidas e breve breve vai sair.

#UGangue #MausElementos

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