MC e produtor: André Cosca, entre rimas e batalhas, conta sua trajetória no hip-hop



A primeira lição que aprendi com o hip-hop foi saber chegar na humildade[1]. Lá em Sampa, quando o Criolo ainda era “Doido”, falava-se em chegar “no sapatinho”, para conquistar respeito. Aqui em Salcity, os rappers Coscarque e Mobbiu (Rangell Santana) nos alertam “é bom saber pisar”, na canção “Cidade Loka”, do grupo Versu2. Coscarque, sereno e sorridente, é bastante receptivo e humilde. Talvez por isso que tem conquistado o respeito de pessoas de dentro e de fora do movimento hip-hop.


Nas redes sociais, André Cosca se define como vegetariano, idealizador do Zuhri, grupo que mescla rap com jazz, MC da Versu2, idealizador do projeto musical Classudos Rap Jazz (que acontece no Pelourinho) e sócio fundador da marca de roupas Kalifa. Um indivíduo plural, artivista e central no hip-hop soteropolitano. Em 2007, Cosca produziu a festa, Fora de Órbita Rap, que promovia a 1ª batalha de MC’s de Salvador. Em 2013, na companhia da produtora Lísia Lira, criaram o coletivo Boom Clap, que, dentre outras ações, promove o 3º Round, uma das batalhas de MC’s mais importantes da Bahia.


Sua conexão com hip-hop vem de suas veias, quando sua família ia no baile Black Bahia nos anos 1980, uma das primeiras manifestações do hip-hop no estado. Nessa época, André era um “pivete” e conheceu o hip-hop anos mais tarde, através da tradição do punk rock para o hip-hop.



Foi através da cultura do skate. Já via nos filmes, na televisão, pouca coisa tocava na rádio, principalmente em Salvador, mas bem antes disso existia um baile em Periperi, chamado Black Bahia, tá ligado? A galera se juntava lá para poder dançar, minha mãe participava. O próprio Nelson Triunfo vinha para poder dançar em Periperi”


A partir do contato DJ Bandido que conheceu a posse Quilombos Clã, no qual se dava aulas sobre negritude, formação política e os quatro elementos hip-hop, no Nordeste de Amaralina.


“Eu queria ser DJ, comecei a tomar aula (com DJ Bandido). Mas por causa do preço, era algo fora da minha realidade. Tinha a aula de rima de Juno, e eu já escrevia poesia, era só ter papel e caneta.


André conta que Salvador por ter muitas posses, era considerado um dos movimentos hip-hop mais politizados do Brasil e que hoje falta um pouco dessa conscientização.


“Antes a galera tirava onda: ‘você leu a biografia de quem?’ Hoje a galera tá tirando uma onda com utensílio, mais do que o próprio conhecimento, coisa da geração hipsterzera”.


Sobre a história do hip-hop na Bahia, André é enfático, o hip-hop surge nos quatro cantos do Brasil, mas é mais evidenciado em São Paulo, por causa dos meios de comunicação.


“Porque o berço do hip-hop é São Paulo? A comunicação do Brasil, em geral, está em São Paulo, a capital da comunicação, é o mar onde todas as áreas têm que navegar, então por mundo tempo, os meios de comunicação retratavam o que estava em São Paulo, não sei se por alguma forma de preconceito ou por preguiça mesmo em pesquisarem ou querem se deslocar.”


Esta lacuna na comunicação nas demais regiões do Brasil foi responsável na forma como a própria história do Brasil é contada nas escolas, ao excluir dos livros de história o protagonismo negro.


Aqui muito das pessoas negras ainda não se sentem empoderadas, não se sentem orgulhosas daquilo que elas são. Os livros de história foram escritos por pessoas brancas, e nada mais é que a visão do colonizador. Abaixaram a gente em objetos; eu mesmo tinha vergonha de ser negro, sabe? Se você pegar os livros de história, vai ver como a cor é subjugada a uma situação humilhante. A partir do momento que o mundo começa a se globalizar, começa a ter pensadores como o professor afrocubano, Carlos Moore[2], que resgata vários intelectuais”.


Em relação à experiência de fazer o Fora de Órbita Rap, o rapper conta que, apesar de Salvador ser uma cidade muito plural, nas festas de rap se tocava reggae e outros gêneros musicais, porém nos shows de reggae, nunca se tocava rap! Por isso que, entre amigos, surge a ideia de promover um espaço que centrava-se no rap.


“A gente pensou na “Fora de Órbita Rap”, para que só tocasse rap, a noite toda, tá ligado? Pensamos em fazer essa festa, no qual eu, Lorde e Rangel tocando, fazendo uma rima e DJ Índio, na casa Muv, um reduto que cabia 80, e dava 300 pessoas. Um dia, na laje, agitando: ‘Ah vamos fazer uma batalha?’ E meio que o Fora de Órbita Rap já mudou sua característica, a batalha vinha primeiro. E já na outra, a gente começou a falar com o Marechal, aí o Cesinha (Batalha do Real – RJ) veio e tudo mais. A gente passou um tempo fazendo o Fora de Órbita, durou 3 anos”.


Sobre o 3º Round, Cosca ressalta a parceria com a produtora cultural Lísia Lira na criação do coletivo Boom Clap. Em 2012, juntos realizaram a II Semana Baiana de Hip-Hop, que teve repercussão nacional, com atividades com KL Jay, Don L, Família de Rua, Kamau, Slim, Karol de Souza, Brisa, MC Daganja, DJ Branco, Dimak, DJ Jarrão, Rangel, Ananias Break, dentre outros[3].


“Em 2013 começa o legado do 3º Round. Fizemos três edições no CCPI, passamos três anos fazendo nas praças no Pelourinho. É bom ressaltar que o Larício foi campeão, Big foi 5 vezes campeão, Mila Potira, Black MC, Bert. É muito gratificante fazer o 3º Round, me deixa bem contente. Eu tive a ideia de querer parar e voltar para agência de publicidade, vários falaram: ‘Não mano, deixa de onda’. Foi um dos momentos mais foda, o carinho dessa galera”.


[1] Para mais detalhes, indico o artigo do antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, “As marcas da cidade: a dinâmica da pixação em São Paulo” (2010), onde Pereira discute sobre a valorização da humildade no movimento hip-hop. Fonte: http://www.scielo.br/pdf/ln/n79/a07n79.pdf


[2] Carlos Moore é um cientista político, escritor, ativista e dissidente cubano. Vive em Salvador desde 1998. Vale destacar que o professor e diretor Spike Lee estiveram na casa de Coscarque, quando Lee estava filmando no Brasil, na Copa em 2014.

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/dissidente-cubano-que-vive-em-salvador-ha-17-anos-carlos-moore-tem-biografia-lancada-no-brasil-15613598#ixzz5HhMfaFDZ


[3] Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/salvador-vai-receber-a-ii-semana-baiana-de-hip-hop-veja-programacao/. Acesso dia 07 de junho de 2018.



Regiane Miranda - Equipe RAP071

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