Lulu Mon’Amour: a madame do rap que toca na ferida



O site Rap071 adverte: Se você não aguenta pedrada, não prossiga a leitura. Considerada a primeira rapper gay do Brasil, Mademoiselle Lulu Mon’Amour é uma mulher trans, natural de Goiânia, que segue há cinco anos “tocando o terror” na cena do rap. Isso porque, aos 35 anos sendo exemplo de resiliência, Mon’Amour não é de meias palavras quando o assunto é falar sobre ser uma mulher trans e periférica.

-“A dor e o sofrimento ainda estão presentes na minha realidade e na realidade de muitos LGBTs e eu gosto de colocar essas vivências no meu trampo”, explica a rapper que acredita ser necessário tocar na ferida quando o assunto é violência e LGBTfobia.


A resistência por parte de produtor local e de espaço cultural que acreditem ou que abriguem qualquer manifestação cultural LGBTs, persiste no Brasil. Em todo esses anos de trajetória, Lulu acabou se destacando e ocupando seu lugar. Mas, até hoje, não costuma ser fácil. A artista acredita que “ainda é difícil encontrar pessoas que acreditam a nível profissional para colaborar ou deixar o som entrar, e a cena de Goiânia ainda, além de machista, é muito de panelinhas”.

Ouça o EP completo "Futuro em Rima", de Lulu Mon'Amour.

O estilo direto e duro presente no flow parecem não combinar com o nome Lulu Mon’Amour, mas a própria alerta aos desavisados: “Não confundam meu estilo requintado com a minha mente periférica”. Ao ouvir “Autodefesa Parte II”, do seu último álbum intitulado “Futuro em Rima” (2015), além de um grande impacto é possível perceber que esta é uma característica recorrente da rapper, que segue a linha das diss tracks (tradução direta “canção de insatisfação”).

Normalmente as diss são feitas para rappers e grupos de rap específicos, mas o processo criativo de Lulu vai além das rixas entre artistas do meio. Para quem julga o videoclipe violento, na faixa “Eu sou” ela explica no verso: “Quem disse que auto defesa é gratuita violência? Eu chamo esse ato certo de suprema auto inteligência”.

Ouça a música "Eu Sou":


“Gosto de definir os temas antes de escrever. Eu tenho a inspiração, vou atrás do beat e flui normalmente. O processo de gravação em estúdio também me atrai. É a parte mais empolgante de criação. Fico maravilhada com os engenheiros musicais e com o nível de profissionalismo hoje. Me sinto lisonjeada de trabalhar com esses profissionais”, conta a artista que, neste álbum, contou com o produtor Sérgio, do Estúdio Augusto Quinan em boa parte das gravações e Cauê Barcelos, da Paralelo Produções, que assinou a produção de duas das 20 faixas do disco. Já o beat da música “Autodefesa Parte II” foi uma produção do Grand DPA, do Liberdade & Revolução, de São Paulo.

Acompanhe o canal de Lulu Mon'Amour no youtube.

As referências musicais de Lulu estão latentes no seu primeiro trabalho, a mixtape “Madame do Povo”, lançada ainda em 2012. “Eu sempre curti ouvir o som de Da Brat, Remy Ma, Lil’ Kim, Rah Digga, Missy Elliott, TLC, Salt-N-Pepa e essas foram as minhas principais influências. Eu curtia criar as letras nos beats dessas rappers, ou seja, samplear e postava essas recriações musicais nas plataformas digitais”, lembra Lulu de quando começou a ver seu trabalho tomar notoriedade nas plataformas digitais de música.


Agora, em 2017, os planos são de produzir um DVD ao vivo do álbum “Futuro em Rap”, que deve trazer bônus de quatro ou cinco vídeos exclusivos. “Hoje, tenho produtores pra criar comigo minha identidade musical através da originalidade dos beats. É essencial que o meu trampo tenha a ver com minha identidade musical e é o que o último trabalho representa”, afirma Mon’Amour.

A sua existência e resistência no cenário do hip hop brasileiro é mais que uma vitória pessoal. É também promover a representatividade LGBT ainda tão subjugada no meio do rap. “Quero ocupar esses espaços que antes não aceitavam nossa arte. Levar o trabalho dentro de um movimento que prega sobre igualdade racial e de classes, mas que ainda oprime a nossa liberdade sexual. Essa ainda é a nossa luta e é só o começo. Derrubou mais um dos meus, outro da mesma semente vai nascer e crescer pra lutar”, avisa a Mademoiselle.

#LGBTFobia #HipHop

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