Historiador e pesquisador baiano de queer rap, Daniel dos Santos traz reflexões sobre a atuação LGBT



Para fechar a série #LGBTQ+, que o site Rap 071 criou para dar, além de visibilidade, uma incentivada na cena local, trocamos uma ideia com o baiano Daniel dos Santos, que é professor, historiador e pesquisador das masculinidades negras na cultura Hip Hop dos Estados Unidos. A representatividade LGBTQ+ na cena do rap da Bahia ainda é tímida, mas a demanda do público se mostra significativa e sedenta de festa de rap com a pista aberta também para outras narrativas e lutas, além da “fechação” – por que não? Com nomes como os de Rico Dalasam, Gloria Groove e Karol Conká, a cena num contexto geral tem contemplado artistas que trazem a pauta da diversidade em suas letras e, claro, no comportamento. Mas, para Daniel, mesmo com essas referências fortes, o nordeste ainda deixa a desejar no quesito representatividade. - “Nossas construções de masculinidades são pesadas. Estereótipos de virilidade como o de ‘cabra macho’ pode ser um fator decisivo para que rappers LGBT’s não existam ou possam emergir na cena, até mesmo no underground. Há uma disputa regionalista de poder já estabelecida entre rappers do Nordeste e do Sudeste brasileiro, mas é uma disputa de homens heterossexuais. Se um dia a gente se atrever a entrar no jogo, a nossa guerra será bem maior, contra tudo e contra todxs que já estão posicionadxs no tabuleiro do rap game”, explica o pesquisador.

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Daniel chama atenção que, principalmente na Bahia, a comunidade LGBTQ+ possui uma outra característica que não deve ser ignorada: a negritude. Se tratando de Hip Hop, a questão ainda acentua, afinal, se trata de um movimento originário da periferia com elementos da musicalidade, oralidade e de comportamento que fazem surgem de matrizes africanas. “A importância de MC’s e rappers LGBT+ na cultura Hip Hop está na necessidade de nós termos o direito de dialogar com nossas tradições culturais negras diaspóricas que nos são negadas. A incorporação da estética do Rap na música Pop muito consumida por nós LGBT+ se tornou uma das estratégias de diálogo e negociação mais frequentes que foram estabelecidas por divas Pop como Beyoncé, Rihanna e Nicki Minaj”, afirma DanDan, como também é conhecido.

Outra questão importante é que, mesmo a produção LGBTQ+ na cena do rap não sendo tão ativa, existe ainda o problema da invisibilidade dos poucos que meterem as caras há muito tempo. Nem de longe chegaram ao mínimo de reconhecimento que um artista do mainstream acaba tendo e Daniel exemplifica: “Nós estávamos lá no underground do underground: ninguém cita o Deep Dickollective, o Deadle, que estão asfixiados pelas narrativas oficiais sobre a história do Hip Hop. A existência de MC’s e rappers LGBT+ coloca as masculinidades rappers em xeque e distorce os estereótipos sobre os homens negros, sempre vistos como másculos, viris, violentos, hipersexuais, predadores. Performar nossos gêneros e sexualidades dissidentes em espaços normatizadores é sempre uma transgressão, uma resistência política”.

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Daniel, que além de professor, historiador e pesquisador também é colunista do site Raplogia, acredita que existe uma grande importância em ser o primeiro crítico de Rap gay do Brasil. Mais uma vez estamos falando de representatividade e, no caso de Daniel, tem também o fato de ser uma pessoa que está atenta às manifestações LGBTfóbicas. Estar atento implica também em comunicar e se posicionar em relação a letras e posturas de rappers que ainda não pegaram a visão e daqueles que tiveram a capacidade de renovar e refazer seu discurso, que pode parecer inofensivo, mas em muitos momentos mata. - “Última vez que me envolvi em polêmicas sobre questões LGBT+ e Rap foi com a punchline do Baco Exu do Blues na diss Sulicídio, na qual ele pratica violência simbólica contra travestis e pessoas trans. Fiquei pensando sobre a presença trans na cultura Hip Hop e percebi o vácuo imenso que existe. Um verso que para muitxs pode ser só uma coisa simples pode matar um ser humano, pois nós não estamos naquele lugar de abjeção. Criolo excluiu uma rima transfóbica do rap Vasilhame, pois entendeu que a arte que salva a vida de tantas pessoas também pode matar a vida de tantas outras, principalmente no país no qual mais se assassina pessoas LGBT+ no mundo. Emicida, Rashid e Djonga já criticam homofóbicos em suas rimas também. Baco, depois da polêmica, tentou se desconstruir com uma punchline contra Marco Feliciano, em uma track do Coletivo Quinta Esquina. Esses são sinais de que nós estamos invadindo e ocupando a cultura Hip Hop”, conclui Daniel dos Santos.

#LGBTFobia

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