“Hip-Hop resistência se constrói assim” - Batalha de S. Caetano volta com fôlego e muita rima

Atualizado: 14 de Set de 2018


Na última quinta-feira (6), os arredores da Quadra de Esportes de São Caetano estavam lotados - não pelos jogadores de futebol, mas por jovens, adolescentes, adultos e muitas crianças. Com uma tenda montada no anfiteatro Espaço da Benção e com um equipamento robusto - duas grandes caixas amplificadoras, microfones, banner e uma equipe de produtores - nos próximos meses a tradicional batalha de MC´s de São Caetano volta à ativa com um novo fôlego.


O projeto intitulado “Heróis da resistência” não tem esse nome à toa. Há dez anos, Bruno Meireles, mais conhecido como “Bruno Suspeito” e seus “irmãos e irmãs”, organiza de maneira independente a batalha de MC´s, sempre no mesmo local. Bruno é arte educador, membro do grupo de rap A rua se conhece e do coletivo São Caetano Resistência.


Depois desses dez anos de militância, Bruno conseguiu dar um novo fôlego para as batalhas. Este ano, o projeto foi contemplado pelo edital Arte Todo Dia, da Fundação Gregório de Matos. Ao longo de três meses - setembro, outubro e novembro, as batalhas acontecerão todas as quintas-feiras, das 19h às 22h.


Já na estreia, na semana passada, sentimos a potência do projeto - Bruno, Gabriela Almeida e uma equipe de produtores realizaram um festival de hip-hop, fortalecendo a cena de rap local, com a discotecagem dos DJs Ivan e Berlota, a batalha de MC´s, apresentação do grupo Okaris e A rua se conhece e painting live feito pelo grafiteiro Baga.


Antes de iniciar o pocket show, um dos membros do grupo Okaris disse: “Eu vejo o rap como uma grande ferramenta para conduzir nossa juventude a bons pensamentos e a bons caminhos, através das mensagens positiva e da energia que o rap transmite”.


Bruno e equipe mostram de que forma esta juventude pode resistir - perante o racismo institucionalizado, a homofobia, a um estado genocida que mata jovens negros, pobres e periféricos. Essa resistência vem por meio da união dos “irmãos” em torno do hip-hop, de um cuidado com o bairro, em tornar este ambiente agradável, de trazer entretenimento e ser um espaço de transmissão de conhecimento.


Logo no início, Bruno avisa sobre a proibição de substâncias ilícitas – uma preocupação normal, visto que havia um número considerável de crianças no local. Na apresentação do grupo A rua se conhece, o rapper fala da experiência de levar rap para os presídios – e para quem não sabe sobre o funcionamento do sistema prisional brasileiro –aconselha assistir o documentário “13ª Emenda” (disponível online).


Sob o clássico “Negro drama” dos Racionais MCs, a batalha de rima começou e contou com a participação dos MCs Dreher, Click Clack, Costal, Rari, Trakino, ZW, Negro John e Diego. O duelo de rimas teve embates acirrados, desde a primeira disputa travada entre Dreher vs. Negro John. Destaque para a brilhante sacada de Costal – ao comparar sua rima tão afiada quanto a lâmina da faca usada contra o candidato de ultradireita à presidência naquele mesmo dia. Mais a melhor rima da noite foi de Dreher, quando rebateu a “piada” levemente homofóbica e disse ser o Cazuza do rap.


Trocando ideia com os MCs, as rodas de freestyle são mais do que um simples “rolezinho”, para resenhar e se divertir. Para Matheus, (Click Clack), 19 anos, morador de Boa Vista de São Caetano, o hip-hop foi uma forma que encontrou para se manter afastado do tráfico, que segundo ele, está presente no cotidiano dos jovens na vizinhança. Hoje o MC, que já batalhou em diversas outras batalhas - dedica 4 horas diárias para leitura: “É uma análise que a gente passa a conhecer outras fórmulas de palavras, outras formas de linguajar, outros idiomas”, afirma.


Rubem (Dreher), 18 anos, morador de São Caetano, MC há três anos, e é também produtor no projeto. Logo no início, ele disse que não sabia se ia realmente batalhar, já que estava trabalhando, mas no final, não apenas batalhou, como foi o campeão da noite – disputando a final com Click Clack. Dreher disse que se apaixonou pela arte de improvisar, já colou na Batalha do Engenho, na Batalha do Retiro e na Quitéria. Para ele, as batalhas de MC´s fazem parte da resistência do hip-hop, pois são uma porta de entrada para conhecer outros elementos do movimento, além de proporcionar maior envolvimento com o rap nacional e com os artistas locais.


A batalha se tornou um ritual, para Ivan (Trakino), toda quinta-feira, participa. Para ele, ser MC traz resultados positivos de forma global – “quando você se torna MC, você tem que melhorar seu vocabulário, sua dicção, várias coisas ajudam na sua vida, no cotidiano”. Segundo Júnior, 16 anos, frequentador assíduo do movimento, as batalhas são uma oportunidade de eles tem para se expressar.


Para Bruno, fazer as batalhas consiste: “da força do pensamento, da fé, das vivências da rua, é nossa grande reunião, participei de muitas batalhas e é um sentimento inexplicável, que transforma. Percebi que precisava dar continuidade a este legado então idealizei e meus irmãos e irmãs vieram comigo.”


O título do projeto faz todo o sentido - os grandes “heróis da resistência” são todos os que estão lá presentes, todas as quintas-feiras, resistindo.


SERVIÇO:

O Quê: Batalha de São Caetano (Projeto Heróis da Resistência)

Quando: Todas as quintas-feiras de setembro a novembro

Onde: Anfiteatro Espaço da Benção - Quadra de Esportes de São Caetano

Hora: 19h às 22h



Por Regiane Miranda, pesquisadora em Cultura e Sociedade e colaboradora do RAP071

Fotos: Divulgação/São Caetano Resistência

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