"Estamos no começo de uma revolução", Cintia Savoli fala sobre mudanças no cenário do rap



Ela já carrega mais de duas décadas na música e uma longa trajetória como MC no movimento hip hop brasileiro. Natural de Brasília, a rapper Cintia Savoli tem experiência para hoje ser considerada uma das principais referências femininas no cenário nacional. Ela, que mora em Salvador há seis anos, é uma das idealizadoras do projeto Rima Mina – ao lado de Mirapotira – e vem ajudando a desenvolver e fortalecer o surgimento de novas MCs mulheres.

Cintia tem uma trajetória de muitas dificuldades e batalhas para conseguir conquistar o espaço e a visibilidade que possui hoje. Nessa conversa com o RAP071, ela lembrou os bastidores cruéis do hip hop; o sub-gênero criado para o rap feito por mulheres; o trabalho realizado na Rima Mina – que terá um EP em breve – e o seu novo disco de trabalho. Confira:


“Os bastidores do ser mulher é pesado”, esse relato de Cintia Savoli representa as dificuldades encontradas diariamente por todas as mulheres que buscam entrar no hip hop e, assim como foi para ela, ser MC. O debate sobre o machismo, a misoginia e a presença feminina no movimento já está presente na cena e não pretende regredir, mas isso também se dá pela luta enfrentada por quem está há anos nessa caminhada.

Cintia vê que essa consciência conquistada nos últimos anos, principalmente por parte das mulheres, permite que hoje elas não aceitem com “inocência as migalhas que são dadas”. Ela lembra que no início acreditava que toda ajuda que lhe era dada era apenas para fortalecer o seu trabalho, mas que muito deles não passava de interesse escondido em forma de ajuda.

-“Eu vejo que as meninas que estão chegando agora já vêm com um discurso, já vêm com uma força que a gente não tinha, já vêm com uma consciência que a gente não tinha. Claro que as mulheres que vieram antes tiveram que resistir de forma quase desumana para estar aqui agora”, analisa a rapper.

Ela lembra que essa conquista de espaço se dá também dentro do público, pois antes a grande maioria dos ouvintes do rap eram homens enquanto hoje não para de crescer o número de mulheres ouvindo e fazendo rap. Mas ela pontua que todo esse processo ainda está no começo de algo que será muito maior:

-“É muito óbvio que as mulheres vão tomar de assalto e isso é só uma questão de tempo. Estamos no começo dessa revolução que vai acontecer”.


CypherBox 5 - Livia Cruz, Cintia Savoli, Taz Mureb, Sara Donato, Issa Paz & Meire D'origem

SUBGÊNERO RAP FEMININO Uma das barreiras que devem ser enfrentadas para o avanço dessa revolução é deixar de tratar o rap feito por mulheres como um “sub-gênero”. Cintia diz que, infelizmente, acabaram resumindo as criações de mulheres a um sub-gênero e isso só aumenta a rivalidade entre as próprias rappers:

- “Tem uma rivalidade entre mulheres muito grande. As meninas, mesmo as empoderadas que já entenderam muita coisa, na verdade é só na teoria. Na prática ainda tem essa rivalidade, tá grudada na gente essa coisa de: ‘porra só tem quatro mulheres fazendo rap e eu preciso me destacar entre elas’”, comenta Cintia.

A rapper lembra que muitas mulheres foram ajudadas por outras a conseguir crescer dentro do movimento, mas quando ganham certa visibilidade acabam entrando num embate uma com as outras. Cintia critica também que as produções de eventos criem “cotas” para artistas mulheres, aumentando a disputa para “botar ali apenas a melhorzinha”.

Assista a turnê Lívia Cruz + Cíntia Savoli e Vandal #EuTavaLaTurneNordeste/SSA

PROJETO RIMA MINA Para ajudar na formação de novas MCs, Cintia criou ao lado da amiga e rapper Mirapotira o projeto Rima Mina, que consiste em diversas oficinas para mulheres que querem entrar no hip hop e no rap. Iniciado em Salvador, elas já circularam em outras regiões do Brasil realizando atividades em presídios femininos, como em Brasília, Piauí e Aracaju.

Mas o grande projeto do Rima Mina para este ano de 2017 ainda está em fase de construção. Trata-se de um EP que está sendo gravado com seis MCs mulheres da Bahia, e que terá a direção artística assinado pelo Rima Mina. Cintia conta como surgiu a ideia do CD:

- “Eu fui chamada para ser jurada do Slam das Minas. Depois do que eu vi eu chorei, me emocionei muito, porque eu sabia que aquelas poetas de alguma forma têm potencial para serem MCs. E elas querem ser MCs, podem querer ser só poetisas, mas também tem quem quer ser MC”, conta Cintia.

O EP já tem definido as composições e os beats das seis faixas, restam agora apenas alguns retoques que devem ocorrer quando Mirapotira voltar para Salvador – ela sofreu complicações durante o parto e segue em recuperação em Manaus. O trabalho deve ser lançado no Slam das Minas, uma pequena forma de homenagear o sarau que vem crescendo exponencialmente em Salvador.

TURNÊ "EU TAVA LA" E DISCO NOVO


Cintia começa no dia 4 de agosto uma maratona pelo Nordeste e Norte para apresentar a turnê “Eu Tava lá”, em companhia da pernambucana Lívia Cruz e do icônico rapper baiano Vandal. Os shows começam na capital Salvador, seguido por Feira de Santana e Aracaju, todos os eventos no mesmo final de semana. A turnê segue depois subindo no mapa pelas cidades do nordeste e norte.

-“Fui convidada por uma produtora de Aracaju, Lane Palanca. Ela fez o convite de me produzir e junto com esse convite ela teve a brilhante ideia de fazer uma turnê pelos estados do nordeste”, lembra Cintia sobre como começou o projeto com Lívia Cruz e outros artistas.

Fora da maratona que tem pela frente, Cintia Savoli está em um ritmo mais leve de shows para investir numa alçada maior. Ela está em processo de gravação do seu novo disco, que já está 80% pronto e aguarda apenas gravar algumas participações. A rapper conta que por ser um CD com dez faixas, o processo de construção pede que se tenha “um conceito, uma proposta e delicadeza”.


- “Eu comecei a ler um livro neste ano que se chama “Mulheres que correm com lobos” e esse livro ele trata sobre o arquétipo da mulher selvagem, fala da essência do ser mulher. [...] Então o conceito vai ser baseado nisso; uma mulher em si ela não é só sensível, não é só forte, só mãe, só namorada. Ela é muitas mulheres em uma”.

Cintia Savoli garante que o público terá um trabalho completamente diferente do primeiro, principalmente no quesito ritmo. As músicas trarão pedaços da Cintia e dos diversos lados em ser mulher. Faixas sobre o seu lado MC, o seu lado mãe, o seu lado amoroso e, como é característico da rapper, músicas sobre ser mulher forte e guerreira. Em um ano de destaque na sua carreira, a última promessa que Cintia Savoli faz para 2017 é inovar na composição: "vai ser um CD com músicas heterogêneas e dançantes".


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