Desconstruindo dentro do rap, Linn mostra que é possível ser bixa preta, trans e Da Quebrada



Em muitos momentos você vai ver o nome da paulista Linn da Quebrada ligado ao funk, afinal entre suas referências estão nomes como: Mc Xuxú, McTrans, Deize Tigrona, Valesca Popozuda, Tati Quebra Barraco e Cláudia Wonder. Apesar da ligação direta com o gênero musical, não se apegue a este detalhe para defini-la. Basta ouvir a música Talento para perceber que o rap está presente nos beats e no flow.

O trap também dá sua pinta nesta faixa que já passou dos 70 mil views no YouTube. Sendo assim, podemos dizer que seu som é um diálogo da irreverência do funk com a “agressividade” do rap. Isso fica bem claro com a música Bixa Preta. Ouça:


- “O funk e o rap são poesia, fazem história. Contam histórias que não são contadas. Falam de corpos que pra muitos não tem importância. O funk e o rap são movimentos que nos mantém vivas. O sistema tenta nos matar, mas com nossa voz re-existimos. É memória, é construção e invenção de novas histórias. Novos modos de existir e permanecer. É ação e ferramenta de transformação. Eu preciso desse movimento”, conta Linn.

Suas letras são politizadas e auto afirmativas, mas não achem que vão encontrar uma música cheia de metáfora. As ideias são diretas e como se diz por aí... é “sem massagem”. Bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Bailarinx, performer e terrorista de gênero. É exatamente como Linn se descreve. Desta forma, como podem ver, não resta dúvida sobre o seu propósito com a música.


Independente do ritmo musical que representa, o que Linn faz é cantar para e sobre a comunidade LGBTQ+. Nascida no interior de São Paulo, a cantora vem de família religiosa e durante muito tempo teve seu corpo e suas vontades castradas. “Na verdade a música é um território muito novo pra mim. Eu parto do corpo. E me considero artista. A forma do que produzo depende de como deixar a obra mais potente. De como potencializar o discurso e seus efeitos. Atualmente, estou fazendo música. E percebo que há um flerte com o rap também, mas não sei dizer exatamente qual é meu segmento musical. É um território transmusical”, explica a cantora que recebeu o nome de Lino Pereira dos Santos Júnior ao nascer, mas adotou Linn como nome artístico.

Acompanhe o canal de Linn da Quebrada no youtube.

Como é de se esperar, não foi fácil a inserção de uma cantora trans no meio da música. Seu primeiro passo para a concretização de Linn como cantora foi dado quando a apresentaram para Luana Hansen, ativista do movimento LGBT e produtora musical, além de ter também projetos autorais. Luana se identificou com o trabalho de Linn e juntas produziram e gravaram o single Enviadescer.

-“Quando comecei, a grande dificuldade foi encontrar essas parcerias. Pessoas que também acreditassem no que estava fazendo e que pudessem somar comigo. Eu não sabia quase nada sobre produção musical. Só estava fazendo, escrevendo e cantando pelos cantos pra quem quisesse ouvir”, lembra a cantora.

Assista ao clipe blasFêmea | Mulher:


Linn se descobriu compositora de maneira bem despretensiosa e espontânea, mas logo percebeu que as letras surgiam motivadas por uma realidade machista de dentro e fora da música. “Passei escrever enquanto exercício e não só por impulso. Fui escrevendo mais algumas músicas, me testando. E percebi que eu as fazia como respostas. Resposta a outras músicas muito machistas, resposta a coisas que eu vivi e senti. Elas sempre tinham uma importância vital pra mim. Eu as cantava pra mim e precisava delas. E hoje as canto porque ainda preciso. Porque fazem sentido. E ganham novos sentidos”, afirma a cantora que acredita na música como forma de ação.


A artista faz questão de lembrar que não está sozinha e que antes dela outras mulheres trans, travestis, drags, gays e lésbicas já existiam e resistiam: “Artistas como nós sempre existiram. Com menos visibilidade e enfrentando muita dificuldade também. Mas o grande lance foi ter a possibilidade de se encontrar e se fortalecer umas nas outras. Cada uma do seu segmento, do seu jeito, com suas canções. Mas de alguma forma ligadas e dispostas a se ajudar, a trocar, somar. Mas não podemos esquecer de todas que deram suas caras antes de nós e que abriram caminhos para que a gente ocupe esse espaço hoje. Além de todas as outras que tem feito seu trampo fora das lentes da mídia e de como tem sido importantes nos seus territórios”.

Quem ainda não saca o trampo de Linn da Quebrada é bom se ligar que amanhã a cantora estará em Salvador para uma apresentação na Mostra CuS - 10 Anos, que acontecerá às 20h, na praça Pedro Arcanjo, no Pelourinho. A Mostra também acontecerá nos dias 18 e 19 de maio, em parceria com o Goethe-Institut Salvador-Bahia e patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através do edital de Culturas Identitárias.

Linn da Quebrada em Salvador (link do evento) (abertura com Malayka e Estranhas Marujo 2017) Data/Hora: 20 de maio - 20h Local: Praça Pedro Arcanjo no Pelourinho Ingressos: R$ 20 | R$ 10 (meia) – à venda no Goethe-Institut com a produção do evento durante os dias da Mostra CuS 10 anos (apenas dinheiro)

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