De Bruta Flor a Sinestesia: entenda a caminhada de Cíntia Savoli até o seu segundo álbum

Cíntia Savoli lançou seu segundo álbum denominado Sinestesia, e de acordo com a etimologia, significa o estudo das origens e desenvolvimento das palavras. Sinestesia é um também termo de origem grega synaísthesis, que significa sentir junto. Na língua portuguesa, Sinestesia é uma figura de linguagem que nos remete aos diferentes sentidos do corpo humano, é uma expressão que se refere a mistura de sensações, como, por exemplo, visuais e auditivas. E é justamente essa mistura de experiências sensitivas compartilhadas que a mc quer passar em seu novo disco.



Antes da "boa terra", Cíntia Savoli morava em Brasília - onde viveu desde a infância -, o centro do poder político brasileiro, e há 8 anos mora em Salvador, mas por onde passa diz que representa o Rap baiano. E desde cedo a música fez parte da vida de Cintia Savoli: a sua mãe, Sandra, é cantora e toca piano e se apresentava em bares. Inclusive, foi em família que Cíntia começou seu projeto musical juntamente com a sua mãe e irmã que também toca piano. Em 2005 Cíntia Savoli iniciou sua carreira no Rap, quando foi convidada para fazer back vocal, fez parte dos grupos Artigo do Rap, Poder Feminino e Remanescentes.


Mergulhando no Bruta Flor


Em 2015 lançou seu primeiro álbum, o Bruta flor, no EP 105 do quadro Trocando Ideia do canal RapBox, Cintia explicou o porquê do nome Bruta Flor, e como a escolha guarda uma profunda relação com sua vinda para Salvador e a entrada no cenário do Rap baiano. Segundo Cíntia, o nome Bruta Flor surgiu durante a gravação do álbum, em meio a um diálogo com o beatmaker e mc, Diego 157, responsável pela sua produção, na qual a personalidade de Cíntia Savoli se encaixava com o fato dela ser bruta nas rimas e uma flor na vida. O nome também surgiu com referência ao refrão da música O quereres de Caetano Veloso.


O álbum é recheado de participações como os mc’s Morango, Galf, Diego 157 que produz e canta, Ravi Lobo, Tiago Negão, Samuel PX e o grupo Vandalismo Poético. É um disco marcado por um forte protesto, se quisermos categorizar podemos livremente dizer que Cintia é uma das mc’s do Rap gangsta brasileiro.

Em faixas como Ateliê da Maldade, que tem participação de Galf e Diego 157, podemos ver toda a revolta de Cintia Savoli com os problemas sociais do Brasil. E pelo período eleitoral que passamos, vale a pena ouvir essa música, como diz Cíntia nós “vivemos numa conspiração disfarçada de democracia”.


Dê um saque na faixa Ateliê da Maldade


E mostrando que o Rap é compromisso, como disse o eterno Sabotage, na música A voz do excluído, gravada juntamente com o grupo Vandalismo Poético, Cíntia Savoli reafirma o papel do Rap nacional como representante da favela, um instrumento que não esconde a verdade e a voz dos excluídos. O que confirma o título de Bruta flor!


Transição em Sinestesia


E diferente do álbum Bruta Flor, no Sinestesia, Cíntia Savoli está em um trabalho muito mais autoral, são apenas 2 participações. Uma com o mc’ Daganja, na música “Como vai ficar?”, a qual Cíntia aborda a sua face de mulher guerreira, mandando um papo reto para quem dúvida do seu potencial como mc, coisa que as mulheres no Rap, infelizmente, tem que afirmar constantemente. “Não subestime na rima, eu sou a rainha desse cangaço”, dispara na letra.


Na track “Campo minado” com o mc Celo Dut - do selo Lápide Rec -, Cíntia fala sobre a complexidade das relações sociais e da fragilidade, e usa muito bem a metáfora do herói grego Aquiles, mostrando que todo mundo tem as suas fraquezas: “andando sem pisar com meus calcanhares, sobrou para Aquiles todos os males.”



E logo na primeira música álbum Zion, que carrega o nome do seu filho, uma faixa em que Cíntia justifica o nome do álbum se chamar Sinestesia, e traz para gente uma mistura de sensações quando ouvimos o seu relato de gravidez na adolescência e a trajetória de mãe solteira. Como bem disse Mano Brown, daria um filme essa vida de dois contra o mundo. Além de trazer as faixas “Diamantes raros”, “Certeza absoluta”, “Cálice”, “Eu não”, “Sinestesia” e “Meu Rap minha vida”. A produção do álbum foi feita por Hugo Rodrigues, mixagem e masterização de Iky Castilho, direção artística do coletivo MARRA.


H.O. - Você está lançando o álbum Sinestesia depois de três anos após o Bruta Flor, gostaríamos que você falasse um pouco sobre a escolha do nome, o processo de produção e o que a inspirou para as composições.


C.S. - O álbum está sendo lançado depois de 3 anos por uma questão de recursos, eu gostaria de ter lançado esse álbum no ano passado. Em 2017 eu comecei a escrever, mas eu queria que esse álbum fosse feito com uma boa produção, mixagem e masterização, eu tive que ir juntando uma grana devagar, porque eu queria que fosse uma evolução do Bruta Flor.

E numa conversa com o Iky Castilho em São Paulo, na casa dele, a gente tava falando sobre álbum, sobre o disco e me falou sobre a concepção, que o disco tem que ser todo amarrado, que as músicas precisam ter conexão uma com as outras e que precisava de um tema. E fiquei com isso na cabeça, eu estava lendo um livro chamado “Mulheres que correm com lobos”, um livro muito forte, que fala sobre a essência da mulher, o arquétipo da mulher selvagem, e cada capítulo desse livro traz a nuance do ser mulher. Aí eu tive uma ideia de fazer o álbum onde cada faixa traria as nuances do que é ser mulher para mim. Então, ali está colocada a mulher que é mãe, que é guerreira, que é frágil e sensível. E sinestesia é um nome de uma das músicas, que tem a ver com a mistura de sentidos.


H.O. - A primeira música de abertura chama se Zion, que é o nome do seu filho, e nessa música você fala sobre os desafios na gravidez na adolescência e mãe solteira. Nós sabemos que no Brasil mais de 5 milhões de pessoas não tem o nome do pai nos documentos, ao mesmo tempo que vivemos uma luta política pelos direitos das mulheres, como a questão do aborto que muitas vezes é motivado pelo abandono paterno. A sua música é reflexo desse movimento político das mulheres?


C.S. - Eu não sei se é exatamente reflexo do momento político que estamos vivendo, é claro que esse momento ele tem influenciado profundamente em tudo que a gente faz, que nós mulheres fazemos. É claro que hoje nós temos mais liberdade e abertura do que antes, para dizer e falar sobre as nossas dores. Mas essa música foi o momento que eu passei um aperto muito grande com meu filho, porque nós vivemos sozinhos, não temos família na Bahia.

Então somos só eu e ele nessa luta, cumplicidade muito grande, mas a gente estava passando por um momento muito, muito difícil, e eu estava um pouco apavorada com a situação, um dia cheguei em casa e chorei muito e desabafei com Deus e começou a vir a música na minha mente.


Aí eu só peguei um papel, caneta e escrevi, foi muito visceral, muito rápida, questão de cinco minutos. Não escrevi com a intenção que virasse música e acabou virando, é simplesmente a minha verdade sendo contada.


Por Henrique Oliveira, amante do Rap e colaborador do Rap071

Fotos: Rafael dos Anjos (Divulgação)

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