Cascão nunca deveria ter saído da Turma da Mônica


Bom, primeiro deixe-me apresentar. Meu nome é Preto Du, sou um dos vocalistas e compositores da banda de rap baiana Simples Rap’ortagem, que comemora em 2017 23 anos de estrada, militância, bandeiras defendidas e levantadas e um pouquinho de música também.


Preto Du, à direita, em show da Simples Rap'ortagem (Foto: Léo de Azevedo)

Esses dias eu estava vendo o desfile da grife de Emicida e Fiote na passarela do São Paulo Fashion Week e pensei... Caramba, isso é uma revolução, isso é empoderamento! Pouco, diante de tudo que temos que conquistar, mas muito para o pouco que temos. Fiquei lembrando de quando o Emicida começou a fazer sucesso. De imediato achei as letras geniais e ao mesmo tempo me assustei com os comentários que lia dos internautas. Muita gente compartilhava da mesma admiração que eu, porém muita gente não gostava.

Até aí tudo bem, tudo normal como tem que ser, afinal nem todo mundo é Helena pra agradar a gregos e troianos. Mas, o que me deixou de boca aberta, assustado mesmo, foi o tipo de comentário. Coisas do tipo... “O rap morreu”, “Sabotage deve estar se debatendo de vergonha, onde quer que ele esteja”, “rap de play boy”... E a mais fina ignorância: “querem tornar o rap pop”.

Fiquei pensando... O que faria com que um rap ficasse mais ou menos pop? Lógico, como artista do Hip Hop precisava me inteirar de tudo isso e resolvi pesquisar.

O primeiro grande motivo para um guerreiro conservador do rap julgar alguma música do gênero como pop é a inserção de novos instrumentos e a expressão de novas influências musicais. Bom, engraçado isso. Na verdade, é muito engraçado! Parece que o sujeito ou a sujeita que faz tal tipo de crítica não sabe de algumas coisas básicas do rap como: O rap é oriundo da fusão de ritmos diferentes.


Eu vou explicar... Na Jamaica se tinha o costume de levar grandes caixas de som para as ruas, colocar uma base de reggae e ficar fazendo cantos falados improvisados em cima dessas bases. Com a grande migração que ocorria na época das populações dos países latinos para os EUA, um jamaicano chamado Kool Herc surfou nessa onda com sua família que os levou para Nova Iorque, mais precisamente no bairro do Bronx. Kool não migrou sozinho, levou consigo essa cultura de promover festas nas ruas do bairro, balançando a população local.

A música negra nos Estados Unidos era muito rica. Os Afro Americanos gostavam do original funk, blues e Soul Music. Não demorou para o DJ um dos pais do Hip Hop, Herc, começar a misturar as já naturais bases de reggae com os ritmos negros norte americanos. Bases super suingadas e prontas para os corajosos arriscarem umas rimas em forma de canto falado, seguindo o ritmo que saía das caixas de som. Ou seja, o rap nasceu de uma mistura de ritmos. Isso é natural do rap. Por onde o rap passar, irá agregar os ritmos populares locais às suas novas composições. O nome disso é evolução musical e jamais deveria ser criticado.

O segundo motivo que os espertalhões do rap usam para acusá-lo de pop é o conteúdo da letra. Quando uma letra foge do que se costumava falar nos raps dos meados dos anos 90 no Brasil, ou seja, favela, violência, droga, problemas sociais, já é levada à forca. É como se o negro não pudesse amar. Como se o lugar de origem do negro fosse nas favelas e não nos tronos africanos. É como se os negros não pudessem sonhar, como se eles não pudessem estudar, entender de literatura, cinema, ou do que quer que seja.

É muito importante que o rap continue tendo a função social de revolucionar, de salvar vidas. Mas todo ser humano precisa respirar, gozar, ter prazer. A poesia não existe se ela for limitada. Afinal, “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.


Muita gente quando escuta um rap falando de algum tema que não seja miséria, diz que o próprio está fugindo das suas raízes. Mal sabe o coitado que o primeiro rap registrado do mundo, leram bem? Primeiro, raiz... Só falava de pornografia pesada. Anos depois do surgimento do rap que as letras começaram a ter um cunho social pesado. Que fique claro aqui, ou melhor, escuro, que eu, Preto Du, prefiro ouvir e escrever raps de contestação social, porém acho também que um dos raps mais revolucionários que já ouvi é por exemplo “Eu To Bem”, de Emicida. A música coloca o negro da favela num lugar de destaque social e empurra isso goela abaixo da sociedade.

Se você reparar, essa música poderia ser muito bem a continuação de Vida Loka Parte 2, dos Racionais MC’s. Se ligue na letra, rapá!

Então, independente de rotulações, só podemos chegar a conclusão de que boa parte do público de rap brasileiro deveria ouvir mais Raul Seixas - “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo...” - e deixar de ser tão conservadores. Afinal, conservadorismo e rap não tem absolutamente nada a ver um com o outro.

Como diz um rapper arretado aqui da Bahia, o DaGanja: “Deixa de fofoca e trabalha”.

Por último, eu só posso dizer que o terceiro motivo para tantas críticas rasas e baratas é pura ignorância e, talvez, até um pouquinho de inveja.


E pra aqueles que citam o grande Sabota em tudo quanto é comentário conservador e agressivo, eu peço que assistam ao documentário do mestre e vejam quando ele diz que um dos grandes sonhos da vida dele era gravar com a Sandy, da ex dupla Sandy e Júnior. Aliás, Sabotage foi um dos pioneiros na inovação do rap no Brasil... Fica esperto malandrão!

#PretoDu #Colunistas #HipHop

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