“Arte de Rua” leva rap e movimentação cultural para o Parque de Pituaçu


Em dezembro do ano passado, nós fizemos uma matéria sobre o mutirão realizado pelo Otra Fita, no Parque Metropolitano de Pituaçu. Pois é! Eles voltaram lá, no chamado "quintal" do coletivo, mas dessa vez para realizar uma sessão de rap que reuniu, no mínimo, quinze músicos se apresentando no palco e cerca de 250 pessoas presentes, seja batendo cabeça ou simplesmente assistindo as apresentações.

Foi a terceira edição do "Arte de Rua", iniciativa que carrega na sua subjetividade a motivação central em manter viva a cultura local e popular das ruas de Salvador para o próprio povo soteropolitano. De acordo com Everton Estrela (King Daka), integrante do Otra Fita e organizador do evento, "nossa questão principal é contribuir com a cultura de rua de uma forma que atraia um público independente".


A identidade da banca com o Parque de Pituaçu vem desde os primeiros encontros e, por isso, estar promovendo eventos que proporcionam a valorização do local parece ser uma missão fundamental para o grupo. Daka conta que "o intuito vai muito além, é também sobre a revitalização do Parque Metropolitano de Pituaçu, para que com a presença do público as devidas autoridades não se esqueçam do nosso quintal".

Dentre as repercussões positivas que a movimentação no espaço proporciona, ele destaca que "o evento contribui com os ambulantes do local". Para atrair uma significante quantidade de pessoas, se comparado aos públicos de outros eventos de rap gratuitos na capital baiana, os eventos organizados pelo Otra Fita são pensados com um mês e meio de antecedência, onde os 18 integrantes se dividem entre produção, assessoria de comunicação, fotografia, organização geral e a própria função braçal.


(À esquerda, Tosh MV; no centro, King Daka; e à direita, James Lincoln - Ambos integrantes do Otra Fita)


Para sustentar tamanha responsabilidade em levar a música dos guetos e a sua representatividade para um espaço turístico e público de Salvador, um time de peso do rap baiano marcou presença na line up do Arte de Rua. O sol ainda estava quente quando o quinteto do SEM MOLDE relembrou os grupos iniciais do rap Brasil - como Visão de Rua, RZO e DMN -, que traziam uma mulher e três homens no vocal.

Depois deles, mais duas pedradas. WWL Rap com suas letras carregadas de denúncias contra o genocídio do povo negro e o preconceito racial, seguidos por 3LDM, rapazeada que deu uma sacodida boa na tarde, intercalando canções de sentimentos afetuosos com bum baps encaixados nos flows de seus cantores. Os caras ainda dispuseram um tempo da sua apresentação para Brê Élen e Iana Muthe subirem ao palco, mulheres que a cada dia têm sido mais frequentes nos microfones de Salvador.


(WWL RAP)


(3LDM)


A transição do dia para a noite foi ao som do Bonde do Descarrego (foto à direita) proporcionando um dos maiores bate cabeça de todos os shows. Na primeira faixa, Vuto e Razz ainda receberam a participação de Shick, ao som de Free Shick, música gravada em parceria entre o Bonde e o Mc. O rap do Otra Fita esteve representado com o microfone na mão quando Digs Oliveira assumiu um dos vocais e fez dueto com Braw, no palco onde receberam também a participação de James Lincoln, sem contar os starts no comando da aparalhagem em diversas apresentações feita por King Daka. A banca voltou a dominar a cena próximo ao final do evento, com a apresentação de Neto Otra Fita convidando outros Mcs.


(Braw e Digs Oliveira)

Como músico e produtor da festa, Daka mostra o seu contentamento em ver o Parque de Pituaçu com bastante gente por causa do Arte de Rua, dentre crianças, idosos, famílias, adultos, jovens e cadeirante: "para mim que sou fundador, é como um sonho que está a cada dia mais perto de se tornar real, pois tem 10 anos que me envolvi com o rap e não esperava ver algo criado por mim e pelo meu "irmão" Felipe Santos (Prost) tomar a proporção que tem tomado".

O ápice da empolgação do evento foi quando Dark Mc assumiu o controle da situação. Ao lado dos seus parceiros de estrada do Contenção 33 - que se apresentaram logo após -, relembrou as sequencias mais consagradas das composições juntos, como "Julgue-me" e "Daqui da Laje PT1". Dentre elas, não podia faltar "A Rua é Contenção", trabalho com participação do Nois por Nois (NPN), convidando Jhomp ao palco para completar o time dessa faixa. Depois de cantarem juntos, a dupla (Dark e Jhomp) presenteou o público do Otra Fita ao recitar as letras de um novo trabalho produzido por eles, que ainda está sendo desenvolvido.


(Mano Jhomp e Dark Mc)

Retornando recentemente ao seu trabalho solo, o rato DoisAs assumiu a responsabilidade de manter o público em alta depois de algumas horas de rap. Mas não foi diferente. Quem continuou na invasão da noite no Parque de Pituaçu assistiu o Mc sacudir geral com "Exxxtrala Boicottti", rap que tem a participação do mago Mobb. Se você não pôde chegar no evento ou teve que sair mais cedo por causa da fragilidade do transporte público em Salvador - que piora ainda mais no domingo -, confira um pouco do som de DoisAs clicando aqui.


(Brê Ellen e Iana Muthe)

Para quem não leu a matéria linkada no primeiro parágrafo, é importante ressaltar que o coletivo Otra Fita não chega no Parque Metropolitano de Pituaçu, utiliza os espaços, usufrui das estruturas e acaba a relação nisso aí. Não, muito pelo contrário. Além do mutirão para recolher lixo da praça pública, eles projetam promover uma pedalada no local para alertar sobre os benefícios de utilização da bicicleta como forma de locomoção, e também uma ação que recolha materiais escolares para serem doados.


Uma das ações em curso é a campanha da doação de agasalhos, onde o Otra Fita está aceitando meias, casacos, agasalhos, calças, lençóis, cobertores e demais artigos que possam ajudar os desamparados a enfrentarem o Outono e o Inverno. Se você tem alguma coisa para doar ou quer ajudar de alguma outra forma, saiba mais detalhes aqui. Eles estarão reunidos também no dia 9 de abril (domingo), no Parque de Pituaçu, para receber mais materiais antes de realizar de fato a ação. Mas, já que o bagulho aqui é rap, no próximo dia 30 de abril tem Arte de Rua. Sabe onde?


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