Rapper e DJ Álvaro Réu fala sobre a batalha Briga de Vira-Lata

Atualizado: 1 de Abr de 2019



Tamires Almeida (@tamires.allmeidafotografia)

Foi por causa das batidas de rap boom bap (estilo originário do soul e do funk) do grupo 509-E, formado por Dexter e Afro-X, que o hip-hop afetou Álvaro Réu. O disco, segundo do grupo, MMII-D.C. (2002) foi presente de um amigo, que pela capa julgou ser de heavy metal - gênero, até então, favorito de Réu, assim como o rock. O disco foi gravado em um estúdio improvisado na penitenciária Nilton Santos, em Franco da Rocha (interior de São Paulo), onde a dupla cumpria pena e logo conquistou o reconhecimento nacional e internacional, sendo um sucesso em países como como Japão, Suécia e França (Para mais detalhes, ver matéria de Diego Assis, do jornal Folha de S. Paulo, de 2002.



disco MMII-d.c. - 509-E

Acharam, que eu estava derrotado

Quem achou estava errado

Eu voltei, tô aqui, se liga só, escuta aí

Ao contrário do que você queria, tô firmão, tô na correria

Sou guerreiro e não pago pra vacilar

Oitavo anjo (disco Provérbios 13) - 509-E






A canção “Oitavo anjo”, que compõe o primeiro álbum, empolgou muitos jovens, dentre eles Álvaro Réu, nome artístico de Álvaro Alves Silva. Mas antes disso, nos idos de 1990, o hip-hop já estava presente na vida do MC. Dono de uma longa trajetória no hip-hop: participou de dois grupos de rap Relatos do Gueto e DominiUm. Autodidata, além de MC e rapper, atua como produtor musical, produtor cultural, videomaker e designer. Fundou o Selo Colé de Mermo Records, integrou o Sarau Bem Black, idealizado por Nelson Maca. Lançou uma coletânea de samples e batidas "#Sampleologia" e seu primeiro trabalho solo, Estudo Inicial Independente de Musica Avançada (2013), um disco só de instrumentais. - Clique aqui e ouça! -


Mais recentemente, Réu tem atacado como DJs em vários projetos (Sr. Haxi) na cidade, como a festa Flex, o novo baile Trap/Hip-Hop. A próxima edição será neste sábado, dia 30/03, no clube Amsterdam, com a presença de artistas como DJ Belle, Áurea Semiseria, Underismo, Não Pode Ser Nada e Makonnen Tafari. Os ingressos estão sendo vendidos antecipadamente pelo sympla.


Nascido e criado na periferia de Salvador, no bairro de Plataforma, Subúrbio Ferroviário, alguns vizinhos ouviam grupos de rap como Racionais e Facção Central. Mas foi em Feira de Santana, por volta de 2003, que Álvaro começou a andar de skate e passou a ouvir mais rock e alguns raps, como Sabotagem e RZO.



Fernanda Maia (@fernandamaiafotografia)

No final de 2006, voltei para Plataforma, e tinha uns caras, na pala do rap, na praça lá. Comecei a trocar ideia e aí conheci Rai (@ray_corts), que é meu cabeleleiro, que me apresentou o freestyle. Quando começamos a fazer freestyle, tinha uns caras de Periperi, "Milicianos", formado por Tiago Negão e Moreno - hoje do Nova Era, Afrogueto (Fall, Kiko), ele que me apresentou essas bandas, ele que me levou no meu primeiro show de rap, 2007, que foi dos Racionais.



@tiagorodriguez.k


Réu começou a sacar mais a cena de Salvador a partir dos grupos de rap e com a batalha Fora de Órbita (organizada por André Cosca e Rangell Santana), passando a frequentar as batalhas de MCs. E, pasmem, a ideia de criar uma batalha surgiu de um certo desentendimento entre eles - Rangel queria fazer umas paradas maiores, enquanto Réu queria fazer algo novo, diferente.

Eu tinha vontade de fazer muito mais do que somente música. Eu via os caras, Rangel e Coscarque fazendo camisa, evento. Pensava “posso fazer isso também, posso fazer minhas paradas”. Rangel era um pouco conservador, veio do punk. Eu queria fazer as coisas de outra maneira. Foi quando fiz a Briga de Vira-Lata, uma batalha na rua.

André Cosca (@coscaphoto)

Nesse período (2007), era o auge das comunidades da rede social Orkut e das batalhas de MCs virtuais (com rappers como Rashid, Projota, Emicida, Marcelo Gugu, Flow). Com uma retomada do hip-hop das ruas, com batalhas de MCs, Rinha dos MC´s, Batalha do Santa Cruz, Batalha do Real, entre outras. Foi nesse contexto que Réu pensou de fazer uma batalha na rua, nos moldes da Santa Cruz. Pelos rolês na cidade, a praça do Campo da Pólvora parecia um bom lugar, pela centralidade.


Álvaro Réu (@alvaroreu)

um dos primeiros flyers do evento - @alvaroreu

Fiquei pensando em qual lugar em Salvador, porque já acontecia os encontros nos bairros, em Cajazeiras, da Suburbano, em São Caetano (batalha Era da Informação). Pensei: “Vou fazer num local central, que dê para encontrar todo mundo. Chamei Spam do “Saca só” e Berlota. Depois começamos a organizar a batalha. Já tinha o nome pronto, a ideia.

Lísia Lira (@liralisia)

Foi na Batalha de Briga de Vira Latas que a rapper Mirapotira despontou, ganhou como representante da Bahia no 3 round e foi vice-campeão do Duelo de MCs em 2012, perdendo na final para Douglas Din (Minas Gerais), o qual também foi campeão em 2013 contra Koell (São Paulo). Mirapotira enfrentou bastante preconceito e teve que responder muita rima machista. Por isso, ao lado de outras minas fodas do hip-hop, construíram o projeto “Rima mina”, com a grafiteira Sista K, rapper Cintia Savoli e DJ Nai Sena.



vídeo @familiaderua



A batalha serviu de inspiração também para a geração dos MCs mais novos, como Luke (@real_astroboy) do coletivo Engenho Lírico (@engenholirico_)


Meu tio, professor de geografia, morava perto do Campo da Pólvora. Aí um dia, saindo da casa dele com meu pai, vi que tava rolando uma batalha (Briga de Vira-Lata) com Dimmi e Big. Eu parei para assisti, era muito gurizinho. Cheguei em casa e pesquisei batalha de rima, achei algumas e me interessei.

Pela frequência dos eventos, a Briga de Vira-latas funcionava como um treino para os MCs. Além de Mirapotira, tiveram destaque os MC Shoes, Suburbano e Larício, sendo o único campeão baiano no Duelo de MCs até então.


Por ser toda semana, a Briga de Vira-Lata começou a tomar muito tempo e Réu decidiu parar para tocar outros projetos, como a produtora. Felizmente, a semente das batalhas brotou em várias outras regiões da cidade, e temos várias ativas na cidade, como Batalha do Trem Bala, da Torre, do Dique, Quitéria, Barreiras, do G, Pia Brotas, Matacity, do Coreto, etc.



© 2018 - RapZeroSeteUm - Todos os direitos reservados