A cena tá embucetada e 'Falocentrismo' passa nada

Atualizado: 13 de Mar de 2019

“Eu gosto de denunciar macho e pessoas sem postura. Se eles escutaram e não acataram na poesia, eu e minhas pivetas vamos dominar esse espaço também”. Foi com essa motivação que a poeta Lais Monique, do Coletivo Pés Descalços, lançou o seu primeiro som, Falocentrismo.


O termo "Falocentrismo" se refere a convicção de uma superioridade masculina, o que dá fundamento a práticas sociais que desvalorizam e violentam as mulheres. A música é uma exposição altiva de práticas machistas e misóginas, além da promessa de que esse ano o Rap Baiano será dominado pelas “bucetas pretas”.


Laís coloca em versos, de forma explícita, que o tempo dos caras de falar ‘pederastia’ e agir sem postura, já passou. Agora não vai mais acontecer, “nós vamos continuar denunciando, porque aqui não tem terror”, afirma sem duas ideias. A poeta ainda disse que onde ela for, e tiver espaço, a voz dela estará denunciando pessoas que agem contra ao que o movimento Hip Hop prega.


Ouça Falocentrismo:



É sempre uma vitória quando uma mulher dá o primeiro passo em alguma área do conhecimento. Segundo Angela Davis (professora e filósofa socialista estado-unidense), quando uma mulher negra se movimenta, toda estrutura se mexe com ela, esse é o sentido de fazer rasuras no sistema que está posto. Laís conta que para ela não foi fácil, as inseguranças, o fato de nunca ter se imaginado cantando, mas ela botou as caras.

“Apesar de fazer poesia, eu nunca me vi cantando. Não pretendo seguir carreira na música, mas acredito que os espaços devem ser invadidos”

Há algumas formas de modificar a estrutura machista dentro do Rap: as educativas e didáticas e as mais agressivas e expositivas. Todas são importantes. Porém, o lugar da mulher que aponta as falhas não é fácil, pode ser solitário e traz riscos. Laís espera que um dia as pessoas brindem as mulheres pretas, como elas brindam os homens pretos. A artista ainda pontua: “o Coletivo Pés Descalços nunca quis hype, a gente nem sabia o que era hype antes de tudo [no ano de 2018, o grupo expôs alguns Mcs da cena no Instagram @coletivopesdescalsos]. Nós temos nossa caminhada e vamos seguir construindo”, delimita.


Trajetória


Nascida em Sussuarana, o primeiro contato da garota com a poesia e o rap foi quando ainda era bem novinha, há cerca de 10 anos atrás. Ela relembra do Sarau da Onça e das batalhas que aconteciam no bairro, que segundo suas palavras, sempre incentivou a arte.

“Apesar de eu só começar a recitar a partir de 2 anos atrás, o contato sempre foi constante. Desde pequenininha eu via ‘Os Agentes’, uma banda de rap daqui, trampando muito. Há 7 anos atrás eu via pessoas, que hoje são pais e mães de família, recitando no Sarau da Onça”.


Laís tem perspectivas audaciosas para o ano de 2019. Segundo ela, acontecerá uma revolução embucetada na cena do rap baiano. “Eu tenho certeza que esse ano é nosso, as 'lines' vão ter só as pivetas, e os caras, como eu disse na música, só vão entrar pagando mesmo. O rap/BA vai ser dominado pelas bucetas pretas, e já está sendo dominado. A pista vai ser nossa e a cena tomada”, finaliza.


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